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A violência associada ao desporto. Que soluções?  

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A escalada de violência associada ao fenómeno desportivo tem sido alvo de inúmeras analises, outras tantas tiradas legislativas, criação de novos organismos e sucessivas reuniões e auditorias.

Em maio de 2004, numa clara iniciativa de prevenção para a concretização do europeu 2004 que se realizou em Portugal foi promulgada a Lei 16/2004.

Mais tarde, em 2009, porque se conclui-o que era necessário controlar a escalada de violência, surgiu a lei 39/2009 que, passados 10 anos, foi novamente alterada para a Lei 113/2019.

Entretanto foram criados vários organismos e intervenientes, a saber, o Ponto Nacional de Informações sobre Desporto (PNID), o Conselho para a Ética e Segurança no Desporto (CESD), o Oficial de ligação aos adeptos (OLA) e, mais recentemente a Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto(APCVD).

Desde o sucesso de organização da fase final do Campeonato Europeu de Futebol de 2004 até aos presentes dias muitos acontecimentos fizeram crer que estamos perante um problema cada vez mais preocupante e para o qual devemos criar soluções, soluções que passem mais por envolver todos os intervenientes na co-responsabilização e acção do que na mera criação de organismos e de legislação que não se aplica por desconhecimento, desinteresse ou mesmo interesses demasiados obscuros.

Se olharmos para outos países da Europa que já se depararam com este fenómeno crescente de violência, podemos verificar que a solução passou sempre pela monitorização, identificação e proibição de acesso aos recintos desportivos daqueles que infringem as regras. Vimos isso em Inglaterra onde as Football BanningOrders conjugadas com as interdições por parte dos clubes de associação de adeptos nas bancadas obtiveram um sucesso de relevo, pese embora continuem a existir problemas principalmente fora dos estádios, sendo sabido que não deixaram de existir hooligans, mas sim foi a violência deslocalizada de dentro para fora dos recintos desportivos. 

Deparamos com resultado idêntico em Espanha onde posso falar-vos de um exemplo em concreto. Em Abril de 2006 em deslocação de um clube lisboeta ao Camp Nouem Barcelona deparei com um Grupo Organizado de Adeptos daquele clube Catalão de nome Boixos Nois, composta por uma larga centena de adeptos com suspeita de ligações extremistas e com um índice de violência tal que estavam no interior do estádio sem a presença de qualquer segurança privado mas sim ladeados fortemente pelas equipas de Ordem Pública dos Moços de Esquadra. Fui á bancada acompanhado pelo Director de Segurança do Barcelona e o ambiente era ensurdecedor, assustador e intimidatório.

Passado cerca de dois anos, em Setembro de 2008, voltei ao Camp Nou, desta feita com outro clube lisboeta que defrontou o Barcelona e ao verificar a bancada onde estavam os Boixos Nois, reduzida a menos de metade dos elementos e desta feita já ladeados por Segurança Privada (assistentes de recinto desportivo) questionei o Director de Segurança o que se tinha passado e foi-me explicado que foram tomadas medidas pelas forças de segurança, pelo Governo da Catalunha e pelo Clube que determinaram aquela situação. 

O que aconteceu em Barcelona é que, de cada vez que um adepto era identificado por um comportamento violento era comunicado ao Governo e ao Clube. Depois era aplicada uma medida de interdição em qualquer recinto desportivo ao adepto e, por sua parte o Barcelona retirava o acesso às instalações ao mesmo e retirava a possibilidade de aquisição de lugar no estádio ou de compra de qualquer ingresso. 

Esta ultima medida é a que dói verdadeiramente a umadepto, não são as multas, nem as apresentações semanais. Para termos ideia, qualquer adepto para obter um lugar anual no Camp Nou tem de ficar em lista de espera, agora imaginemos o que sente o adepto ao lhe ser retirada a sua entrada.

Por cá pouco ou nada disto se tem feito. A realidade em Portugal é de uma Liga de Futebol com 18 Clubes, 28 Grupos Organizados de Adeptos, vulgarmente apelidados de claques, e com um registo de apenas 4.700 adeptos, ou seja, os Grupos Organizados de Adeptos fingem o seu registo na base nacional, os clubes assobiam para o lado, os diversos organismos não intervêm e as Leis não são cumpridas.

Não vemos jogos à porta fechada como impõe a legislação, não vemos interdições aos recintos desportivos em número coincidente com os episódios de violência e muito menos vemos os clubes a intervir e a estabelecer mecanismos de auto controlo dos seus adeptos. 

Enquanto não nos capacitarmos que todos os intervenientes são responsabilidade e que todos têm de agir para mitigar este fenómeno, não conseguiremos devolver os estádios aos outros adeptos que nada têm a ver com esta realidade, àquelas famílias e amigos que são na realidade a maioria que preenche um estádio mas que são tratados como menos importantes.

 

João Saramago

Gestor de Segurança e Técnico Superior de Protecção Civil

 

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