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Fora de tempo

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Nesta altura, seja quem for que apareça a falar, contra a escolha que foi feita é sempre acusado de irresponsável e de querer impedir que o progresso chegue à vida dos portugueses.

O que se tem passado com o recente debate em torno da escolha da localização do segundo aeroporto de Lisboa é muito típico da política portuguesa. Quando a opção já está, em princípio, tomada é que começam a surgir os programas e os debates a tratarem deste assunto. Com raras e honrosas exceções, quase ninguém deu importância a este assunto na devida altura.

 Tenho escrito e falado, neste e noutros espaços, sobre a rede de aeroportos nacionais. Tive o privilégio, numa das vezes que escrevi sobre o tema, há cerca de três anos, de receber um telefonema do anterior ministro do setor, e um convite para uma conversa de um alto responsável da concessionária. Os dois procuraram explicar-me a inevitabilidade da solução Montijo, nomeadamente por causa da impossibilidade ou inviabilidade das alternativas faladas.

 

Tempos mais tarde, já como líder do partido Aliança, fui procurar por pessoas, com formação técnica, que nos expuseram as enormes limitações do Montijo e as grandes vantagens de Alverca. Nunca tendo apreciado muito este género de disputas – até por entender que nunca há soluções perfeitas -, impressionou-me, todavia, aquilo que ouvi. E impressionou-me, principalmente, em matéria de ambiente, no plano de custos, no domínio da segurança, e também, na perspetiva do bem-estar da esmagadora maioria dos cidadãos que apanham voos em Lisboa. Assim sendo, nunca mais parei, tendo visitado a base aérea de Alverca, tendo convidado jornalistas para sobrevoarem o local e tendo procurado sensibilizar a opinião pública e os mais altos responsáveis para essa solução que se me afigura muitíssimo preferível.

 

Nessa altura, há uns bons meses, quase ninguém se fez eco ou deu a conhecer aquilo que cada vez mais pessoas, com formação nesses domínios, aparecia a defender.

 

Entretanto, como é óbvio, o tempo vai passando, e foram surgindo as pronúncias, os pareceres e as recomendações, em sentido positivo, das autoridades públicas sobre a escolha do Montijo. Naturalmente, à medida que o tempo foi passando, a solução apresentada como decisão do Estado, foi ganhando foros de inevitabilidade. E passado o tal tempo, começaram os debates e os programas, e começaram a aparecer declarações indignadas no sentido que se adivinhava: agora já está tudo pronto, não vamos voltar para trás outra vez.

 

Há muito tempo que percebi que estas discussões entre técnicos de várias áreas não são muito diferentes das discussões entre juristas: onde há dois técnicos, há pelo menos duas opiniões.

Mas três verdades, entre outras, ninguém pode contestar:

 

1. Alverca é muito mais perto da Portela do que o Montijo;

 

2. Já existem as ligações, nomeadamente ferroviária, à porta de Alverca com direção ao centro de Lisboa ou às várias estações intermodais;

 

3. Sendo o Montijo, são os voos low-cost e os de médio curso que vão para lá. Na Portela ficam os de longo curso, ou seja, os maiores aviões sobre Lisboa.

 

Era bom que estes debates, nomeadamente sobre a extensão da pista – o que é obrigatório, o que é o mínimo seguro e o que existe noutras paragens – tivessem ocorrido antes das decisões. Nesta altura, seja quem for que apareça a falar, contra a escolha que foi feita é sempre acusado de irresponsável e de querer impedir que o progresso chegue à vida dos portugueses. 

 

Só um exemplo, em conclusão, para ilustrar o que fica dito: a Assembleia da República discute os mais variados temas, agora até obras de arte e as ex-colónias. Que debate sério ocorreu até hoje no plenário, ou fora dele, sobre este tema? Se houve, ninguém deu por ele. E basta este exemplo para estar tudo dito. 

 

Advogado

Fonte: Jornal de Negócios

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