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A Esperança

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Qual a esperança, no meio de toda essa selva? Sem dúvida, a justiça. Não falo agora da divina, mas da terrena. Justiça justa, o que implica agir a tempo, não ouvir os hipócritas e não obedecer ao som dos tambores.

Há alturas da vida das sociedades em que se percebe a força dos rolos compressores próprios da máquina que governa o mundo. Nessas alturas costumam vir ao de cima, de um modo muito nítido, os atributos da hipocrisia e do cinismo. De repente, essa máquina, por fundamentos muitas vezes legítimos, decide investir, com força, contra alguém ou alguns. E não há nada a fazer, ou quase nada. E é hipócrita, e é cínico, porque as razões que fundamentam a legitimidade dessa ofensiva já existiam há muito ou, às vezes, desde sempre. Só que, enquanto aqueles que, por uma razão ou por outra (ou por muitas), passam a ser proscritos, tiveram poder e tiveram vantagens para proporcionar, eram recebidos com pompa e circunstância nas suas visitas, viagens e reuniões. Quando é decretada, pela máquina mundial, que passam a proscritos, a pompa e a circunstância são substituídas pelos mandados de captura.

O que ficou escrito atrás não implica qualquer juízo de valor sobre acontecimentos atuais que agitam a sociedade portuguesa, entre outras. Mas é bom que tenhamos todos a capacidade de entender até que ponto – ou a partir de que ponto – as sociedades têm dinâmicas quase automáticas contra as quais ninguém pode fazer frente. E não vale a pena pensar em critérios e valores duradouros. Na verdade, acontece muito os maus já serem maus há muito tempo e os bons, de repente, deixarem de o ser sem se perceber bem porquê. O que mais impressiona é a quantidade de pessoas que antes julgava outros de um modo e depois passa ao extremo oposto. E, como se sabe, a máquina, nos tempos de hoje, é global e tem um brutal poder de comunicação.

 

Por isso mesmo, cada vez mais pessoas ficam impressionadas com o que implica ter, em qualquer momento, responsabilidades públicas e rejeitam essa possibilidade. Os que vivem nas fronteiras da esfera privada sentem-se, naturalmente, mais protegidos das incursões dos poderes globais.

 

Qual a esperança, no meio de toda essa selva? Sem dúvida, a justiça. Não falo agora da divina, mas da terrena. Justiça justa, o que implica agir a tempo, não ouvir os hipócritas e não obedecer ao som dos tambores. Justiça justa que puna os maus, mas não deixe fugir os fingidos, os oportunistas e os que são iguais aos que esconjuram. Se a justiça se deixar engolir pela máquina, então a esperança desaparece e a hipocrisia que pretende esconder o que é desprezível tirar-lhe-á o lugar. 

 

Advogado

Fonte: Jornal de Negócios

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