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O perigo em Espanha

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Em Portugal, o facto de o PS e o seu líder optarem por uma coligação à esquerda, ou, em vez disso, ao centro ou à direita, não põe em causa nem a Constituição nem o Estado nos seus princípios fundamentais.

O Governo que nasceu em Espanha constitui, sem dúvida, um ousado caminho de radicalização. A maioria do presidente do Governo é muito escassa, e composta por diferentes realidades políticas, entre socialistas, independentistas de várias tonalidades e diferentes regiões, e assumidos republicanos. Este Governo, pela natureza dos seus apoios parlamentares, representa uma ameaça para as instituições espanholas e para o seu formato constitucional. Na verdade, tem apoiantes que querem o derrube da monarquia e a instauração da República, e tem também apoios – que nuns casos são os mesmos, noutros não -de quem luta pela independência de regiões de Espanha. Por outro lado, é um Governo que junta toda a esquerda, contra todo o centro-direita, o que também nunca tinha acontecido nestas décadas de democracia pós-constituição de 1978.

O debate parlamentar em torno da investidura de Pedro Sánchez foi bem demonstrativo, no tom e no conteúdo das intervenções, daquilo a que pode levar esta opção do líder do PSOE para conseguir ser novamente presidente do Governo. Já é complicado que tal aconteça num Estado sem fraturas, sem cisões e sem antagonismos graves que ponham em causa os fundamentos da ordem constitucional. Mas num país em que existem conflitos gravíssimos entre uma região e os seus dirigentes, de um lado, e o Estado central, de outro, torna-se muito complicado.

 

Em Portugal, o facto de o PS e o seu líder optarem por uma coligação à esquerda, ou, em vez disso, ao centro ou à direita, não põe em causa nem a Constituição nem o Estado nos seus princípios fundamentais. Pode ser melhor ou pior para os portugueses, consoante a perspetiva de cada um. Mas não é por ser um ou outro caminho que se geram tensões graves e ruturas difíceis de controlar. Já num Estado como o espanhol, isso faz toda a diferença. Acresce que, no caso espanhol, é pouco provável que, ao contrário do que acontece em Portugal, o novo executivo governe com uma orientação contrastante com o programa e os princípios dos partidos que o apoiam. Como disse alguém no debate nas Cortes de Madrid, Pedro Sánchez faria qualquer coligação para manter o seu partido no poder. Isso pode ter um preço muito caro. E no estado em que está a Europa, com o Brexit, com a agitação social em França, com o forte abrandamento económico na Alemanha, seria importante que de Espanha viessem bons ventos. Não me parece nada, é muito pouco provável. Mas a maioria é tão estreita e os problemas vão ser tantos que também é pouco provável que o Governo Sánchez/Iglesias dure mais do que pouco tempo.

 

Advogado

Pedro Santana Lopes

Fonte: Jornal de Negócios

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