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Ninguém quer morrer

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Há uns anos atrás (bastantes) um grupo de raparigas navegava num barco no Douro quando caiu um homem na água junto delas.

O homem tinha saltado de uma ponte, porque queria suicidar-se.

Elas recolheram o homem vivo e consciente, e ele só repetia: “Ía a meio e já me tinha arrependido”.

É que ninguém quer morrer.

É preciso colocar alguém num estado de verdadeira aflição para que considere isso como uma opção.

Claro que não falta quem diga “se eu estivesse naquela situação, preferia morrer”; mas isso só dizem à distância.

Na hora da verdade, ninguém lúcido e psicologicamente equilibrado quer morrer.

Em contrapartida, não falta quem gostasse de ver outros mortos.

Como é que se chega ao estado psicológico (claramente patológico) de querer morrer?

A questão das dores incomportáveis é meramente académica, porque os cuidados paliativos são mais do que suficientes para resolver isso.

Um suposto direito a uma morte suave esbarra no facto de que a morte é sempre algo traumático que não sabemos como decorre no íntimo do nosso ser, mesmo anestesiados.

É um conceito um tanto estranho de direito, porque na prática podemos morrer em qualquer momento e de qualquer maneira, quer queiramos quer não.

Mais facilmente se chega àquele estado pela solidão, o abandono por parte dos familiares (se existirem) e amigos, a sensação de não ser querido.

Uma sociedade que deixa que os seus cidadãos cheguem a esse estado é desumana.

Apresentar a morte como uma solução para o problema é como atirar o lixo para debaixo do tapete; os problemas sociais continuam lá, só se escondem.

Depressa aparecerão mais pessoas com essas fragilidades, e rapidamente serão atiradas para debaixo do tapete: cada vez com mais facilidade, cada vez com menos escrúpulos.

A solidariedade que deve existir numa sociedade sã, o apoio mútuo nas dificuldades, o sentir-se parte de um todo, mesmo quando já não há forças físicas ou psíquicas, é o remédio para os que noutra situação quereriam morrer.

É necessário promover a consciência de que, como se dizia noutro sítio (https://observador.pt/opiniao/todos-fazem-falta/), todos fazem falta e têm um lugar e uma função a desempenhar na sociedade.

Permitir a eutanásia é desproteger as pessoas com debilidades.

É animar o homem a saltar da ponte, em vez de o apoiar na vida.

Ricardo Mendes Ribeiro

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