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EUTHANATOS

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Eutanásia, do grego “eu+thanatos”, significa “boa morte”.

Ao pensar no tema, parto de dois princípios que considero inalienáveis: o direito à vida e o direito à morte. Digo “direito à morte”, porque subtrair a alguém a possibilidade de morrer, é condenar essa pessoa a viver. E ninguém é realmente livre se não puder dispôr livremente da sua vida – e da possibilidade de morrer uma boa morte – se achar que as suas circunstâncias o justificam. Caso contrário, a vida é uma fatalidade.

Agora, a escolha está entre fazê-lo de uma forma solitária e agressiva como é o suicídio (diz-se que Diógenes, já muito velho, suicidou-se suspendendo voluntariamente a respiração), ou de uma forma acompanhada e suave, como acontece nos casos de morte medicamente assistida.

Uma coisa é “morrer”, outra é “o morrer”. E o que incomoda a quem defende a eutanásia é exactamente “o morrer”. Isto é, incomoda o processo doloroso (quer do corpo quer da alma) que pode arrastar uma pessoa indefinidamente pelo plano inclinado da perda gradual das condições de uma vida que considera digna, até bater no fundo e dar o último suspiro. A vida vegetativa, pode não ser a escolha de uma pessoa para viver os seus últimos dias.

Há quem considere a morte medicamente assistida, uma apostasia. Há quem a considere uma apoteose. Para mim, é o caminho mais digno para se sair de onde, afinal, já não se está.

Não defendo a eutanásia como uma forma de incentivar comportamentos suicidas, a que se recorra “por dá cá aquela palha”, para evitar a dor de viver (e quando falo em “dor de viver” falo em tristeza, angústia, depressão…). É claro que a dor de viver se cura com mais vida, não com a morte. É verdade que Sócrates, na Grécia antiga, achou que a morte, através da ingestão da cicuta, seria a forma de ser curado da doença de viver… mas esse não é o meu quadro interpretativo da vida. Repito: a dor de viver cura-se com mais vida, não com a morte.

Mas também não acho séria a discussão quando se agitam fantasmas e se fala da eutanásia como uma conspiração desumana, horrorosa, assassina para matar velhinhos. Por favor, que haja ética na defesa do que se propõe.

Em princípio, sou favorável à possibilidade de alguém poder escolher uma morte medicamente assistida, principalmente quando um indivíduo, na plena posse das suas faculdade mentais, entende que a sua dignidade e qualidade de vida sofrem irremediavelmente pela perda de faculdades que considera indispensáveis a uma vida satisfatória.

E lembrei-me de uns versos de uma canção da Sara Tavares, baseados num texto bíblico: “E se um dia eu disser // Que já não quero estar aqui…?”.

Se eu decidir que já não quero estar aqui, posso ir embora da forma mais suave e digna possível? Esta é a questão que interessa.

Luís Seabra Melancia

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