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ACERCA DA “MÃE QUE ABANDONOU O FILHO NO CAIXOTE DO LIXO!

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“Um horror de mulher!”
“Uma pessoa que merecia que lhe fizessem o mesmo!”
“Devia arder no inferno!”
“Morrer na cadeia!”
“Mãe”? Qual mãe? Aquilo não é uma mãe, não sabe o que é ser mãe, é um animal!”

E, foi assim que começou a notícia, comentários, condenações em praça pública de mais um episódio social, que acontece tantas e tantas vezes.

Agora, vamos lá ter mais maturidade emocional e honestidade intelectual e refletir sobre o caso.

Porque o caso efetivamente o merece.

Comecei esta reflexão, por: “neste caso existem duas vítimas”, mas não, na verdade, neste caso, e para já, só existe uma vítima!

  • Uma jovem com 22 anos, sem pai, sem mãe, sem casa, sem afeto, sem amor- próprio, sem companhia, sem amizade, sem amor, sem solidariedade, mas cheia de solidão e revolta e apenas com as ruas e o frio como companhia!
    Ninguém sabe pelo menos até agora, o que levou esta jovem de 22 anos a abandonar a criança que pariu, num caixote do lixo, mas importa questionar vários cenários, antes de julgar, antes de condenar!
  • Ora, alguns elementos já temos: uma jovem de 22 anos e “sem abrigo”.
  • Perante este cenário, e atendendo ao número de mulheres, homens e crianças “sem abrigo” que são violadas, terá sido esta jovem violada?

E tendo sido violada, não será compreensível (não aceitável, claro) mas, não merecerá pelo menos reflexão, sobre o que sentirá uma jovem de 22 anos, sozinha, sem nada, na rua, vendo-se “grávida de abuso”, porque é assim que ela se vê, “grávida de abuso”, não será entendível o “ódio” ou pelo menos a “ausência de afeto” pela criança que se desenvolveu no seu corpo sem a sua permissão!?

Sentindo-se profundamente e apenas um depósito de esperma de um abusador que lhe cravou no corpo uma criança!?

A vontade que sentiu de afastar de si algo que não escolheu, mesmo sendo uma criança! Toldada física, emocional e psicologicamente pelas circunstâncias que um parto provoca.

Não merecerá este cenário, reflexão?

Outra situação se pode colocar, mesmo que não tivesse sido violada, terá esta jovem, ferramentas emocionais, porque sociais e financeiras manifestamente não tem, para desenvolver pelo feto ligação emocional para o sentir como seu filho?

Saberia ou conheceria esta jovem de 22 anos o seu corpo para se aperceber que desenvolvia dentro de si uma vida?

Uma jovem de 22 anos abandonada pela sociedade, que a vida despejou na rua! Uma jovem, que passa fome, frio.
Uma jovem, cuja decisão que tomou foi resultado de uma sociedade pouco saudável, resultado de um Estado incapaz de lhe dar a mão!?

Ora, já a criança abandonada pela jovem que o pariu, foi uma sortuda.
Teve a sorte de ser encontrada e salva a tempo de não morrer ao abandono!

Agora vamos ver, só o tempo o dirá, se esta criança não será mais um jovem vítima da vida e vítima do sistema.

Vamos ver se o Estado, não o aprisiona numa Instituição até aos 8, 9, 10 ou mais anos.
A fazer bem o seu trabalho, defendem alguns, o Estado remete de imediato esta criança para adoção, eu vou mais longe e questiono.

  • Será que se esta jovem fosse “trabalhada emocional, psicológica e socialmente”, não seria uma excelente mãe, não seria ela capaz de adquirir competências parentais, aprender amar, aprender a cuidar!?
  • E que tal o Estado antes de decidir o futuro desta criança (que muitas vezes se mostra incapaz de decidir o futuro de inúmeras crianças institucionalizadas) questionasse a jovem de 22 anos que pariu a criança, se precisa de ajuda para deixar de viver na rua e criar e cuidar da criança que pariu, “tornando-o seu filho”?
    Não será esta uma preocupação social?

É obvio que esta jovem nas circunstâncias em que vivia, não sabe, não conhece e não reconhece o sentimento de ser mãe.
Ser mãe é muito mais que parir uma criança!
É sobre estas questões que importa refletir!
O cerne da questão é tão mais profundo do que aquilo que se vê à superfície.

Mas penso que esta e outras questões, dão imenso trabalho ao Estado e penso que o Estado não se está para “chatear” com estas questões relativas às emoções e afetos que tornam uma sociedade saudável, feliz e solidária.

É mais fácil para o “Estado”, (des) governar um país sem recordações afetivas, é mais fácil para o Estado demitir-se da responsabilidade de cuidar dos seus cidadãos e aprisioná-los na solidão das ruas, à sua sorte.

É mais fácil para o Estado, entregar a criança numa Instituição e indiciar uma jovem de 22 anos de homicídio qualificado na forma tentada, aplicando-lhe a medida de coação mais gravosa – prisão preventiva.

Muito mais fácil!
Acontece que a maioria da população portuguesa não se revê nesta atuação de um Estado que se demite de cuidar, de um Estado acusador, julgador e abusador emocional.
Não é para isto que pagamos os nossos impostos!! Não é!

A sociedade devia sentir-se protegida pelo Estado, e não abandonada! Onde está o Estado?
Onde está o Estado que por dever constitucional, deve proteger as pessoas e bens?
Onde está o Estado, que não sinaliza estes casos? Onde está o Estado que devia atuar preventivamente?
Temos um Estado ausente de respostas!
Um Estado incapaz de assumir as responsabilidades e incompetências.
Estamos todos, tal como esta criança e jovem, órfãos de quem nos governe com responsabilidade, bom senso e justiça!
Quem também devia estar a ser julgado e condenado, neste caso, era o Estado!
Este devia ser condenado, por se demitir dos seus deveres constitucionais, de protetor e defensor dos direitos humanos.
O Estado merece censura e ser “condenado moralmente”, porque, esta jovem podia ser qualquer um de nós!

Sónia Carreira da Conceição

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