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O MEU PARTIDO É MELHOR QUE O TEU

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Em Portugal há abundância de uma coisa muito gira, chamada pudor e que é usada no limite da hipocrisia.

Em Portugal há assuntos que custam muito a arrancar nas conversas de ocasião. Religião. Sexo. Política (não incluo aqui o futebol porque, embora amizades de longa data já tivessem sido desfeitas à conta de uma piada insensata, a bola é o assunto mais despudorado que existe).

Já falar de política, ou melhor, de partidos, é uma chatice…. Eu, que entrei nas lides partidárias há muito pouco tempo, tenho que me esquivar, em arriscadas manobras de judoca amadora, das bocas dos meus colegas e amigos, sejam ou não simpatizantes de outro partido – de esquerda, entenda-se.

O que é verdade é que não lhes interessa muito falar comigo sobre o meu partido, ou seja, sobre a minha política e sobre as minhas ideias. O que lhes interessa é que esse partido não seja de esquerda, pois se fosse, bastava um displicente encolher de ombros para que a minha recente atividade fosse aceite, sem necessidade de mais questões. Mas ser de um partido político não é como ser de um clube desportivo, não abre trilhos fáceis às conversas nem palmadinhas nos ombros.

Embora andemos todos a falar dos mesmos problemas: doença crónica na saúde pública, asfixia fiscal, falência da segurança social, corrupção descontrolada, baixos salários, dívidas altas, greves e greves e greves, trotinetes assassinas, o país a arder como se fosse infinito… as pessoas não se juntam por cor e paixão, com cachecóis, minis e tremoços a ver debates sobre as legislativas na televisão. Por cá, adivinhar a cor política que se veste, é quase como adivinhar um perfume de alguém que por nós passa: “cheira-me que fulano é cavaquista” ou “isto é malta da luta operária” sussurra-se ao ouvido sobre um colega que nos saúda ao longe.

Eu, que até acho muito saudável este tipo de discussões, fico surpreendida com a pouca vontade que quase toda a gente demonstra em fazê-lo: “Ah, és de direita?…” e ficamos por aqui.

Então é mais ou menos isto: Se és de esquerda é absolutamente normal, e que interessa isso, não são todos de esquerda? Se afinal de contas, te atreves a ser de direita, pois claro, és católico, conservador, empresário, rico e não gostas dos trabalhadores.

A sério?

Com muita ironia à mistura, que há coisas que não se podem levar demasiado a sério, resumo aqui as minhas conclusões:

1º Saber que se é militante/simpatizante de um partido equivale imediatamente a ser: a) pelos trabalhadores; b) pelos patrões – aparentemente convicções separadas à nascença.

2º Ser pelos trabalhadores é, regra geral, socialmente mais bem aceite porque, logicamente, é ser também pelos pobrezinhos, pelas minorias, pelo povo (povo aqui equivale a ser “das gentes”, i.e. da dita classe média para baixo).

3º Logo, ser pelos patrões equivale a ser um betinho pretensioso, i.e. aquele político com berloques nos sapatos, que anda de iate, veste Lacoste, e só lê biografias do Churchill, da Rainha D. Amélia, do Steve Jobs e afins.

4º Ser pelo povo é, então, ser intelectualmente avançado pois a biblioteca deste militante que é de esquerda é composta por Marx, Engels e derivados, e Física Quântica.

5ª Logo, ser pelos empresários equivale a ser rico ou pior, querer ser rico à custa dos sacrifícios, suor sangue e lágrimas dos trabalhadores, portanto do povo, portanto das gentes, portanto propriedade da esquerda, a única ideologia com mandato divino para defender os trabalhadores.

No fundo, ninguém dúvida que esta dicotomia é ignorante e ultrapassada, mas a verdade é que continua a ser alimentada pelo pudor hipócrita que nós, portugueses de Portugal, carrega nos genes. Não falar abertamente de política e dos partidos políticos, das suas causas e princípios, não permite que reflitamos seriamente sobre que tipo de sociedade é que estamos mesmo dispostos a defender e prolonga um (E)stado de coisas que não faz muito sentido no ano de 2019 e contando.

É por tanto pudor que, em Portugal, assumir abertamente que se é de um partido político é quase um verdadeiro sair do armário, principalmente os de direita que os de esquerda, lá está, o são “como é natural”. Exceção, talvez, àqueles que já militam desde os infantários e, logicamente, não têm que lidar com este tipo de filtro social como esta vossa amiga, que aos 40, resolveu passar do sofá à ação precisamente por cansaço do status quo.

É por isso que reconheço esta dificuldade em sair do armário como sendo quase exclusiva da direita. A direita envergonhada que não se assume, como se a palavra “direita” carregasse em cada sílaba a memória de um doloroso passado ou o preconceito de um verdadeiro projeto de progresso económico, prova do amorrinhamento das mentalidades que ainda acusa o facto de termos vivido 50 anos de paralisia cultural.

Custa-me que Portugal seja ainda hoje um país cuja esquerda usa e abusa do discurso político de defesa dos interesses dos mais carenciados enquanto penaliza invariavelmente as empresas e o investimento privado mostrando-se incapaz de impulsionar um novo ciclo de crescimento económico e de competitividade que a todos beneficiaria.

São falácias gastas próprias dos que desejam uma sociedade agrilhoada à mesquinhez invejosa, pequenina e desconfiada. Por sorte, tenho absoluta confiança de que as tais “gentes” que a esquerda tanto arroga para si, não são analfabetos que vivem em cavernas. Pelo contrário. É a classe laboral, à qual pertenço, que vive pelo salário que recebe, pagando impostos, taxas e taxinhas sobre tudo o que tem, compra, vende, assina, come e bebe. É esta classe, a quem tanto o Estado tira, que olha para a frente e deseja o progresso social e o crescimento económico do seu país porque isso significará o seu próprio progresso.

Mas aqui chegados, ei-la. A força da velha direita que agoniza no caminho das pedras que tem que fazer até dia 6 de outubro. Envergonhada, corre sozinha rumo ao pódio de uma derrota ímpar enquanto a esquerda celebra o espaço fértil em que nada mudará. Por teimosia? Por despeito? Prefiro a humildade que minha certeza me confere no caminho que eu escolhi. Sem vergonha, levanto a cabeça, por uma nova direita.

Joana Ferraz

Aliança

Cabeça de Lista por Leiria

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