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Santana Lopes: “Por este caminho só vejo Portugal queimado”

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Pedro Santana Lopes, presidente do Aliança, considera “inadmissível e inaceitável” o atraso na reflorestação de Portugal, após os incêndios de 2017, culpabilizando o Governo. O político apela a que todos venham a estas zonas do país, ver o que aconteceu e como está a recuperar o país.

Defende ainda a descentralização do poder, o reforço das Câmara Municipais nestas matérias, de forma a mobilizar pessoas.

Santana Lopes esteve no distrito de Castelo Branco, no passado dia 4, para ver, com os próprios olhos, como estava a reflorestação após os incêndios de 2017. O político esteve em Álvaro, Oleiros, uma das aldeias mais afetadas pelos incêndios, e no SerQ, na Sertã.

No final da visita, o presidente do Aliança deu uma entrevista exclusiva ao POVO da BEIRA.

Povo da Beira (PB) – Qual o objetivo desta visita?

Santana Lopes (SL) – Dentro da semana do Ambiente, lidar de perto com a questão da floresta e, mais importante, da reflorestação (…) Quisemos vir ver se o país está a mostrar que aprendeu a lição ou não. E se a reflorestação está em curso, se está a ser bem-feita, se os autarcas e as populações estão a participar (…) Gostava muito de ter chegado aqui hoje e ter tido a mesma sensação que tive ao olhar para as poucas manchas de floresta verde com que me deparei e ver outras, cheias de pessoas e voluntários, a cumprirem planos de reflorestação, bem equilibrados e ordenados, com projeto futuro e com a participação das entidades locais. Porque mais uma vez, e disseram-me isso há ano e meio, que o grande problema é que tudo isto é feito e comandado a partir de Lisboa e por isso, muitas vezes, não avança. Nomeadamente o inventário do património florestal (…) O Governo que diga onde é que está a acontecer a reflorestação ou o ICNF e pode ser que tenhamos visto mal ou passado ao lado. O que vi em todo o lado é que não está a ser feito e isso é inacreditável e inaceitável.

PB – Deduzo dessas palavras que não ficou satisfeito com o que viu. Estava à espera que houvesse mais trabalho de campo?

SL – Se fosse Ministro das Florestas – sempre trabalhei assim e tenho provas dadas – garanto que tinha muita gente aqui a trabalhar já, a mobilizar as comunidades, a dar o exemplo ao país e que não pode perder tempo. Portugal não pode errar outra vez e não pode perder tempo. Por isso tinham de estar aqui milhares de pessoas a plantar árvores, de forma ordenada, segundo planos estabelecidos. Agora nada estar a acontecer dois anos depois, é perda de tempo. Até porque a vegetação e o mato começam a crescer, começam algumas espécies arbóreas mais polémicas a crescer de modo desordenado, e o problema é o desordenamento e a falta de limpeza, de gestão. Como ouvi há bocado, «se tratarmos as florestas como jardins, por muito que custe, o perigo é muito menor». É por isso que, em Monchique, defendia o reforço enorme dos presidentes de Câmara na responsabilidade destas matérias. Mal ou bem, mas têm a obrigação de ser quem conhece melhor o seu território e os seus munícipes. Quando fui presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, não era de lá, mas já conhecia o território palmo a palmo e criei equipas de voluntários 24 horas por dia e fui buscar um helicóptero para a Proteção Civil (…) Esta inação é incompreensível e inaceitável. São três i’s.

PB – Considera que há uma inércia por parte do Governo? Na inauguração da Feira dos Sabores do Tejo, em Vila Velha de Ródão, o Secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, Miguel Freitas, alertou que os incêndios iriam chegar a Portugal, mas que o país estava mais preparado para esse combate. Concorda?

SL – O que o Secretário de Estado devia dizer é que já estamos preparados para começar uma reflorestação em massa, com x espécies autóctones, com x árvores bombeiro, com x pinheiros, eucaliptos, o que quiser. Agora o Secretário de Estado que diz, depois de dois anos, isto vai arder outra vez, já estamos prontos para os incêndios, é uma maneira de pensar, falar e de funcionar que não é a minha. Procuraria, com certeza, mobilizar e formar as pessoas para a repressão das tragédias, para lutar contra elas, mas antes de mais para a prevenção. Parece que em Portugal o político competente é aquele que prepara o país para os incêndios. Eu diria que político competente é aquele que prepara o país para não ter incêndios. São maneiras diferentes de ver a coisa. Não estou a fazer demagogia, acho, com toda a franqueza, que essa outra maneira é pouco inteligente e pouco útil para aquilo que o país precisa. Até porque esta era uma ocasião fantástica para criar uma enorme mobilização, com empregos mais renumerados num caso, menos noutros, mas toda esta zona – entre jovens, engenheiros florestais, investigadores, operários – termos uma grande mobilização, uma missão “Vamos Reflorestar Portugal”. Por este caminho só vejo Portugal queimado. Não estou a exagerar. Pelas estradas que andei, o que vi foi montanhas nuas e, se olhar à procura de exércitos para reflorestar, não vi. Nós viemos cá foi por causa disto, não para dizer mal (…) Acho que a política é isto, temos de dizer bem, criticar o que não está a ser feito, porque se não isto é uma neurose coletiva, com consequências complicadas na vida das pessoas.

PB – É preciso haver uma descentralização do poder para mobilizar as pessoas para uma reflorestação?

SL – Tenho poucas dúvidas que sim. No SerQ, uma professora falava-me nas Associações de Proprietários Florestais e nas ZIF’s – Zonas de Intervenção Florestal. Acredito que seja um bom caminho, porque têm de ser os próprios e economias de escala. O problema da floresta é um pouco o problema da propriedade agrícola, às vezes. Há uma questão de dimensão e, por isso, o emparcelamento das propriedades é uma das grandes questões da agricultura portuguesa. A floresta é um pouco a mesma coisa, mas este é o caminho. Entre as Comunidades Intermunicipais, os autarcas, as associações florestais, as associações de proprietários florestais e as ZIF’s, acho que tudo corre muito melhor do que for de Lisboa. Eu sou de Lisboa, mas fui presidente do Conselho da Região Centro, mas ao estar o poder todo em Lisboa, há um pensamento de «eu tomo conta do país todo» e depois quando acontece alguma coisa têm de sempre a desculpa que não estão suficientemente perto. A decisão tem de estar perto para ser eficaz (…) Portanto, falando um pouco mais forte, isto é inadmissível – já devia estar muita gente no terreno a fazer aquilo que Portugal precisa. As árvores ainda vão demorar muito tempo a crescer e a floresta a ficar como deve ser. Isto é uma desolação. Quero que o país se sinta mobilizado, que estão a olhar por ele e que estão a fazer aquilo que deve ser feito. O Primeiro-Ministro e o Ministro da Agricultura que venham aqui e vejam quantas árvores estão dentro do plano de Reflorestação.

PB – Em relação aos incêndios de 2017, houve um trabalhador em Oleiros que morreu no combate aos incêndios. A Câmara Municipal de Oleiros tem “lutado” muito para que a família seja indemnizada como qualquer outra vítima. Qual a posição do Aliança neste assunto?

SL – Tenho muita dificuldade compreender a distinção. Acho que uma pessoa que morreu enquanto trabalhava por causa dos incêndios tem direito à mesma indemnização. E mesmo que houvesse alguma pequena dúvida, devia ser ultrapassada, em nome daquilo que a comunidade deve sentir: que se faz justiça. Se fosse alguma indemnização a um grande banqueiro prejudicado por alguma surpresa económica, talvez fosse mais fácil do que uma situação dessas. Nunca perguntei formalmente ao partido qual a posição, mas não preciso. Acho que é uma questão de humanidade e decência tomar essa decisão.

PB – Então porque é que, no seu entender, o Governo tem uma opinião contrária sobre o caso?

SL – Não consigo perceber. A verdade é que concelhos daqui já foram, várias vezes, descriminados por diversas razões, por diferenças de cores partidárias nestes anos. Dou-lhe o exemplo de Mação, Oleiros, Sertã, várias verbas e programas de indeminizações às vítimas dos incêndios, já houve atrasos ou falhas injustificadas ao longo destes anos. Se me pergunta porque é que o Governo faz isso? Não sei explicar, não posso dizer mais nada.

PB – Qual é a estratégia que o Aliança tem para o Interior e, mais concretamente, para o distrito de Castelo Branco?

SL – Há uma medida que está no nosso programa que é uma causa, no que me respeita, antiga – a descentralização, transferir serviços. Sou defensor que mesmo Ministérios e Secretárias de Estado devem sair de Lisboa. O país tem um problema tão profundo – centralização e desequilíbrio – que são medidas simbólicas, mas não só (…) Quando fui Primeiro-Ministro fiz isso com várias Secretárias de Estado. Na altura houve pessoas que brincaram, satirizaram, agora quando foram os incêndios calaram-se com essas brincadeiras. Há séculos que o país tem a corte e o poder centralizado na corte. A descentralização é uma das medidas. Outra, acho que o país precisa de aumentar a área de regadio – como o Alqueva e aumentar a área de regadio. Desenvolver determinadas áreas económicas – como a caça. Eu não sou caçador, nem gosto de caça, mas sei quanto a caça rende a Espanha – uns milhares de milhões por ano. Estou a falar do caça como atividade económica (…) A política fiscal, mas uma política fiscal que é muito fácil de dizer – IRC zero, taxa zero para quem faz investimento ou IRC reduzido para quem faz investimento. Não, tem de ser acompanhado de um esforço das agências portuguesas competentes na motivação do investidor, para a criação de uma série de condições que o faça trazer o investimento para o interior. A parte fiscal é importante, mas há outras, como os descontos para a Segurança Social, estímulos maiores se contratar pessoas da região. É um programa global, acho que as Universidades hoje em dia dão uma ajuda grande na fixação de pessoas no país, de população. E outra que acho que a Aliança é o único partido que fala hoje em dia, que é acabar com as portagens nas ex-scuts. Há muitos anos defendi-as, agora o balanço é muito mau. Essas vias não contribuíram em nada para o desenvolvimento, em muitos casos para o contrário. Potenciar o turismo, acho que o turismo tem muita potencialidade aqui e, portanto, acho que deve merecer o mesmo apoio, em termos de promoção e investimento, das principais regiões do país. No Turismo de Natureza, Ecoturismo, Turismo Fluvial, Turismo Florestal, Turismo de Montanha. Há muita coisa que pode ser feita, se as pessoas se concentrarem a trabalhar nesta região. O problema é que Lisboa pensa em Lisboa, no Porto e no Algarve, para férias.

PB – Ficou satisfeito com o resultado alcançado nas eleições europeias no distrito? E quais as perspetivas para as eleições legislativas?

SL – As eleições europeias foram positivas, foi um passo. Fomos o primeiro partido dos que não tiveram representação. Não fiquei satisfeito, porque queria ter representação, mas não posso considerar que foi negativo. Acho que foi positivo, tivemos mais de 60 mil votos. Em relação às eleições legislativas, queremos representação parlamentar. Quantos não sei, vamos ver. Temos uma grande candidata em Castelo Branco – Ana Camilo – uma pessoa reconhecida na área social e bancária, com uma vida pessoal, profissional digna de elogios e conhecedora dos grandes problemas do país. Nomeadamente, os direitos das pessoas com limitações físicas, o modo como sociedade os trata, integra, os ensina e inclui, e a Aliança quer muito ser o partido dessa causa.

PB – O Governo tem falado muito no combate às assimetrias entre o litoral e o interior e em formas de tornar o interior mais apelativo aos empresários e às pessoas. Quais as medidas do Aliança para combater a desertificação do interior e acabar com as assimetrias em Portugal?

SL – Já falei disso anteriormente. É um conjunto de medidas, o desenvolvimento tem de ser integrado. No plano cultural, quem está em Lisboa tem muito mais oferta. Quando cheguei à presidência da Câmara da Figueira da Foz não havia um teatro. Por isso fiz o Centro de Artes e Espetáculos (…) A diferença é a vários níveis, mas tem que haver mobilidade laboral, tem que haver mobilidade social e outra resposta da administração. A questão fiscal acho que é importante, obviamente. A possibilidade formação nesta região para as pessoas se fixarem.

PB – Muitas vezes, as cidades têm boas ofertas formativas, como Castelo Branco tem o IPCB, mas a verdade é que após a conclusão dos estudos, a cidade não oferece, em termos pessoais e profissionais, atrativos para os jovens se manterem por cá. Como é que as cidades do interior podem combater isso?

SL – Volto a falar do desenvolvimento integrado. Algumas cidades em Portugal estão a fazer isso, como é o caso de Braga. Tem de se trabalhar nas várias frentes. Falei do plano cultural. Porque é que a juventude vai para Lisboa em muitos casos? Porque tem muita oferta, muito entretenimento e também mobilidade laboral. Não quero criticar autarcas, mas o desenvolvimento tem de ser nas várias áreas para as pessoas sentirem que as suas cidades valem a pena. Isso não é fácil, os recursos financeiros das Câmaras Municipais são poucos. Lá está, sem o Governo central isso é muito difícil. Tem que haver uma mobilização para o investimento grande, tem de aumentar a massa crítica, o valor acrescentado das economias locais tem de ser atrativo. O que vejo muitas vezes em cidades e vilas que visito é que as pessoas dão mais valor à rotina do presente que a galvanização para o futuro. Às vezes, a galvanização para o futuro enriquece o presente e há um espírito de resignação em muitas pessoas (…) O país tem de crescer mais do que os outros aqui à volta. Mais riqueza e, para isso, é preciso mais investimento. É uma luta muito grande, mas não desisto. Sou mais teimoso que os outros.

PB – Como já afirmou, é a favor da abolição das portagens nas ex-scuts. O Governo criar medidas para tornar o interior mais atrativo e as estradas dessas zonas serem das mais caras do país não é um contra-senso?

SL – É um contra-senso, é verdade. Em 2005, fiz a campanha para as legislativas a defender as portagens. E odeio essas contradições. Defendia isso, porque sempre achei um escândalo os contratos das PPP’s rodoviários – eram um sorvedouro. O Governo de Passos Coelhos renegociou, mas eram contratos desequilibradíssimos. Passaram 15 anos e é tempo de fazer um balanço. E o balanço é que foram um desastre. Fazemos muitas dessas estradas e elas estão vazias. As pessoas vão pelas nacionais, com um maior risco ambiental, para a segurança das pessoas, de sinistralidade, risco de vida, e para que? Sabe quanto é que representa de receitas estas ex-scuts e outras? Cerca de 100 milhões de euros. O grosso da maquia vem da Brisa – cerca de 580 milhões de euros. O total é cerca de mil milhões de euros. Portanto, acabar com as portagens nestas ex-scuts traz muita vantagem para estas regiões e representa um prejuízo muito pequeno, inferior ao que o Estado despende com os Passes Socais em Lisboa e Porto – que é cerca de 140 milhões de euros. Há uma coisa que a Aliança não faz: é propor medidas que não saiba quanto custa e onde é que se vai buscar o dinheiro para se pagar. Esta das ex-scuts não nos pesa a consciência em nada. E é bom que seja divulgado que a Aliança defende isto, para ver se outros partidos também defendem. Se for só um, sem maioria absoluta, é difícil que passe.

Fonte: Povo da Beira

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