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Combalido e dorido, Santana não faltou à última arruada. E ultrapassou a CDU

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Aliança desceu o Chiado atrás da CDU, e a proximidade ia dando problemas. No final, Santana e Paulo Sande ultrapassaram os comunistas. Pela direita, claro

Há três raparigas que avançam sorridentes e decididas em direção a Pedro Santana Lopes na Rua do Carmo, e uma delas vai direta ao assunto: “Eu quero dar-lhe um abracinho!” “Devagarinho! Com cuidado”, pede-lhes Santana. Sai o abracinho, devagarinho e com cuidado, Santana disfarça mal o esgar de dor, e seguem-se as amigas, também com beijos e abracinhos. “Viemos do Porto para apoiá-lo”, explicam as moças.

Não são as únicas. Celeste Russa, a peixeira mais famosa da Figueira da Foz e fã número um de Santana Lopes, virou apoiante da Aliança e também veio de propósito à arruada do Chiado para estar com o ex-líder do PSD e fundador do partido.

Desde o acidente de viação que sofreu no dia 15 com o cabeça de lista às europeias, Paulo Sande, esta foi a primeira aparição pública de Santana Lopes. Está longe de estar em forma, movimenta-se com dificuldade, a postura do corpo denuncia as dores – no peito, nas costas, no braço – e há de levar um ralhete do médico por se ter metido numa acção de campanha que implica uma caminhada, abraços, palmadas nas costas, apertos vários, tudo doloroso. Mas sentiu que tinha de ser – tinha de estar no último dia de campanha da primeira eleição que o seu partido disputa.

“Não podia faltar”, diz a uma apoiante de há muitos anos, que lhe pergunta como ele está, e ouve como resposta um “mais ou menos”.

Santana ainda estava dorido para os cumprimentos e abraços
Santana ainda estava dorido para os cumprimentos e abraçosJOÃO SILVA

“COMPARADO COM O PSD NÃO ESTÁ MAU”

Quase toda a gente se conhece no grupo que desce o Chiado à roda de Santana e Sande. Quando chegou ao ponto de encontro, na Praça Camões, o cabeça de lista da Aliança cumprimentou uma por uma todas as pessoas que o esperavam, e sabia os nomes de quase todos. “Estamos nisto há cem dias, feitos hoje. Já dá para conhecer toda a gente”, explica o candidato ao Parlamento Europeu. Também ajuda o facto de não serem muitos.

O grupo vai engrossando conforme passa a hora combinada e Santana não chega. A “passeata”, como diz o candidato Bruno Costa (é um termo menos pedestre do que “arruada”) estava marcada para as 17:30, mas só arranca quando Santana se junta ao grupo, já depois das 18h.

Por essa altura, são mais de centena e meia. É bom para um pequeno partido com cinco meses de existência, mas é pouco para a história de Santana Lopes, que já fez este mesmo percurso com muito mais gente atrás de si. Não estará arrependido?”Claro que não. Nada. E comparado com o PSD não estamos nada mal”, responde, numa referência à mesma arruada feita na véspera pelo seu antigo partido. É um facto: à proporção, a “passeata” da Aliança até correu melhor do que a do PSD no dia anterior.

O Aliança cruzou-se com o PCP na descida e quase deu m..., chatice
O Aliança cruzou-se com o PCP na descida e quase deu m…, chaticeJOÃO SILVA

“CATEGORIA, CLASSE E EDUCAÇÃO”

Na recolha de simpatia, Santana não tem razões de queixa. Muitos dos que se cruzavam com ele rua abaixo perguntavam-lhe como está, desejando-lhe melhoras e felicidades. “Vamos é ver os votos no domingo”, comenta Santana, que não está nisto para Mr. Simpatia. Quer eleger no domingo, e quer perceber que sinais este primeiro teste dá para as legislativas de outubro.

Para além da simpatia com Santana, os candidatos da Aliança bem podem levar o prémio da educação e da classe nesta campanha eleitoral, a julgar pela análise feita pelo líder do partido. “A nossa lista não disse mal de ninguém”, salientou Santana em declarações aos jornalistas. “Falámos de ideias, apresentámos gente com muita categoria”, insistiu, concluindo que “a educação e a classe não são incompatíveis com a firmeza”.

“Seria um grande desperdício” se a Aliança não elegesse eurodeputados. Por isso, Santana Lopes pediu que “no domingo os portugueses abram a mente e escolham novas forças políticas, sejam elas quais forem”. A expectativa do antigo primeiro-ministro é que a notícia na noite de domingo sejam os pequenos partidos, e estes “deixem de se pequenos e se tornem médios”.

O argumento já havia sido ensaiado por Santana antes: “Não faz sentido estar sempre a dizer mal do que existe e depois escolher sempre os mesmos.”

“OU ESTA MERDA PARA OU A GENTE CHATEIA-SE”

O atraso de Santana Lopes na chegada ao ponto de encontro ia provocando um conflito diplomático. A última tarde de campanha eleitoral em Lisboa costuma ser um corrupio no Chiado e hoje não foi excepção. Às 4 da tarde arrancou o PS pela Rua Garrett abaixo, às 18h era a hora da CDU, e pelo meio era o slot da Aliança. Santana atrasou-se, mas os comunistas são aquela máquina – à hora marcada saíram do Largo do Chiado, deixando a Aliança para trás.

Os “aliados” (é assim que os apoiantes da Aliança se referem a si próprios) tiveram de fazer um compasso de espera, e depois fizeram todo o percurso na cauda do desfile da CDU.

De cada vez que os dois grupos se aproximavam, os comunistas pediam que se mantivessem as distâncias, para que os slogans e a música de um partido não interferissem na campanha do outro. Até que os comunistas pararam ao fundo da Rua do Carmo (e não no Rossio, como é hábito) para fazer um comício. Os “aliados” queriam continuar a sua descida, mas não podiam…

Foram descendo lentamente, até que um operacional da campanha da CDU, muito exaltado, chegou à cabeça da marcha da Aliança e deixou um aviso em bom português: “Ou esta merda para ou a gente chateia-se!”

“Os comunas estão nervosos”, comentou-se do lado da Aliança. “Acham que a rua é deles”; “Acham que estamos em 75″… Santana e Sande deram ordem de paragem e ali ficaram algum tempo. “Chamamos o António Guterres para mediar isto”, sugeriu em tom de brincadeira o presidente da Aliança.

Por fim, após algum tempo de espera, conforme o grupo comunista ficou mais compacto ao fundo da Rua do Carmo, os “aliados” descobriram uma saída para o impasse: podiam cortar pelas escadinhas do Elevador de Santa Justa e ultrapassar a CDU. Pela direita, claro.

Assim fizeram e, com surpresa, descobriram que a escadaria dava um belo spot para o final da arruada. Santana falou à sua gente de megafone, agitaram-se bandeiras e cartazes com a frase “Eu voto Aliança” e a coisa só acabou depois do hino nacional, para surpresa dos muitos turistas que esperavam para subir no elevador.

Valeu a pena o esforço? “Valeu, valeu”, respondeu Santana. Em esforço.

Fonte: Expresso