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Campanha mais difícil do que esta não há

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Maria Manuel Leitão Marques e Paulo Sande concordam: motivar os eleitores para o debate europeu é a dificuldade maior de uma campanha dura e prestes a terminar.

Partilham África. Maria Manuel Leitão Marques nasceu em Moçambique, Paulo Sande viveu lá em criança e nunca perdeu a ligação. Têm em comum uma vida de “saltimbanco”. Para o liberal, estas eleições são uma estreia na política partidária, em contraste com a experiência da socialista nestas andanças. Uma conversa pausada sobre “o que interessa”.Campanha mais difícil do que esta não há

Paulo Sande (PS) Sei que nasceu em Moçambique…

Maria Manuel Leitão Marques (MMLM) É verdade. Bem no Norte, em Quelimane.

PS Vivi uns anos em Lourenço Marques. Gosto muito de Moçambique.

MMLM Sou filha de um médico e sei que é filho de um militar. Os nossos pais tinham algo em comum – mudavam muito de sítio. O meu trabalhou em Quelimane e em Inhambane, uma pérola, conhece? Vivemos ainda no Maputo, de resto foi lá que acabei o 7.º ano do liceu, e em Ile, na zona de Gurué, na província da Zambézia.

PS A certa altura, precisamente por ter vida de saltimbanco, o meu decidiu mandar-me para o Colégio Militar. Tinha 10,11 anos. Mas passava as férias grandes em Moçambique. As minhas primeiras imagens da juventude inicial foram passadas em Nampula e na ilha de Moçambique. Lembro-me muito bem.

MMLM Na praia das Conchas…

PS Havia umas casinhas completamente primitivas, uma espécie de bisavós dos resorts, com um barzinho. Moçambique foi muito marcante. É um país maravilhoso.

PORTUGAL VIBRANTE E VAZIO

PS Nesta volta que estou a dar por todo o país, notei uma coisa muito curiosa. Há diferenças gritantes entre a vida das cidades em Portugal. Há cidades vibrantes, cheias de vida, cheia de luz e outras que parece estarem a apagar-se. Que estão menos dinâmicas. Pareceu-me ser o caso de Coimbra. Sente isso?

MMLM As cidades do Centro – e eu conheço bem o Centro – são relativamente pequenas e com dinâmicas muito erráticas. Por exemplo, em Coimbra, temos a melhor incubadora de startups portuguesa, considerada em termos internacionais nos rankings, mas, depois, as startups que deviam alimentar o tecido industrial da zona não crescem lá.

PS Esse é o grande problema, não acha? Noto grande entusiasmo, sobretudo da parte dos jovens, em muitos sítios do interior. Mas também a incapacidade de fixar no local essas mais-valias.

MMLM É o grande esforço a fazer. E aqui entra a Europa – Portugal precisa de um maior equilíbrio regional. O gap entre as duas áreas metropolitanas (Lisboa e Porto) e o resto do país é muito grande. É maior hoje do que no passado. É realmente um grande problema.

PS Mas também encontro grande vontade de mudar.

MMLM Concordo. Temos de empoderar mais as regiões de convergência. Precisamos de ter uma voz mais forte. O Porto está melhor porque se fez ouvir, porque teve o aeroporto, porque boicotou o aeroporto da Ota que seria uma grande âncora para a Região Centro.

PS Nestas viagens que tenho feito, ouvi no Porto queixas do centralismo de Lisboa, em Aveiro do centralismo do Porto. Depois, Coimbra queixa-se de Aveiro, Viseu queixa-se de Coimbra. E Beja de Évora.

MMLM O Centro só conseguirá ter voz quando perder essas pequenas rivalidades.

SOBERANIAS E REGIÕES

MMLM Há dias, num debate, uma funcionária que em 1986 acompanhou os primeiros deputados europeus, disse-me: “A Europa mudou muito. A minha Europa era a das regiões; esta Europa é a das soberanias”. E é um bocadinho verdade. Por muito que as regiões de convergência estejam lá, com o alargamento, na verdade, a ideia da região diluiu-se um pouco na ideia da soberania. Ajudava até a que não falássemos da Europa apenas de cinco em cinco anos. Nisso, todos temos culpa. É uma campanha muito difícil. Já fiz outras campanhas eleitorais, nunca vi uma campanha tão difícil como esta.

PS Concordo em absoluto.

MMLM Continuamos a ter de explicar o que pode parecer óbvio: no dia a dia, na nossa casa, no que comemos, na segurança alimentar, na nossa segurança, nos remédios que tomamos, em tudo, temos um bocadinho de Europa.

PS É uma questão crucial. Deixe-me falar, então, de uma proposta que visa contribuir para uma maior proximidade entre as pessoas e os deputados europeus, na qual gostaríamos de envolver todos os deputados. Trata-se do deputado sombra – alguém que fará a ligação entre o os portugueses e o trabalho desenvolvido por cada deputado europeu.

DERIVAS ANTIDEMOCRÁTICAS

PS Estamos a assistir a uma deriva assustadora para o futuro da democracia.

MMLM E nós, que já vivemos sem democracia, assustamo-nos mais, ainda. Os populismos são responsabilidade da Europa, mas também de todas e de todos nós. A forma como foi gerida a crise deixou muita gente para trás. Pior: a transição tecnológica, muito rápida, fará com que se percam empregos numa área e ganhem empregos noutras, sendo que os que vamos ganhar exigem competências e qualificações que as pessoas que perderam empregos não têm. Se este processo não for gerido de forma justa, teremos um grande problema. PS Não sei se estamos, vamos já ver.

MMLM Se não gerirmos de forma justa esta transição entre os que perdem e os que ganham, entre os que estão na linha da frente e aqueles que nunca ouviram falar dos temas, estamos a alimentar populismo. E não é apenas nos mais pobres e nos desempregados. É nas classes médias, também.

PS Deixe-me falar do pilar social. No fundo, estamos de acordo quanto ao objetivo final, onde podemos divergir é na forma de lá chegar. Tenho-me dedicado a explicar o que é o liberalismo. Significa uma coisa simples: o Estado deve ser forte naquilo em que tem verdadeira capacidade de ser útil e eficaz, com obrigação de garantir o equilíbrio à sociedade. Intervindo na pobreza, por exemplo. Em tudo o resto, abster-se.

MMLM Aqui começamos a distinguir-nos. Porque eu defendo a intervenção na Educação, onde o Estado tem de combater a desigualdade, na Saúde e noutras áreas essenciais.

PS Eu, por exemplo, acho que a regulação é fundamental. A grande ameaça está nos extremos. Cada vez mais temos de ser moderados radicais, ou seja, lutar contra os extremos.

VIDA POLÍTICA

PS Nunca concorri a eleições, nunca fiz política partidária, tive sempre uma vida agitada em muitas áreas.

MMLM Costumavam dizer-me que não falava como uma política. Achavam que era um elogio. Sempre disse que era política.

PS Nesta fase da campanha, o foco já está nos resultados.

MMLM Nesta fase, esta conversa é uma ilha e quero cumprimentá-lo por isso. Se tivesse à minha frente o Paulo Rangel ou o Nuno Melo não poderia estar a ter esta conversa, não poderíamos discutir coisas sérias para a Europa e para Portugal

PS Não acha que é disto que a pessoas gostam?

MMLM Penso que sim. No nosso caso, cada um tem apenas uma personalidade. Discutimos hoje o que poderemos discutir daqui a dois meses em Bruxelas. Mas alguns deputados mudam quando estão em campanha. Vestem outra pele.

À CONVERSA…

Maria Manuel de Lemos Leitão Marques

Nasceu a 23 de agosto de 1952, em Quelimane, Moçambique

É professora catedrática da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra desde 2003. Foi ministra da Presidência e da Modernização Administrativa. Candidata ao Parlamento Europeu pelo PS

Paulo José Rombert de Almeida Sande

Nasceu 9 de fevereiro de 1957, em Macau,

Foi Embaixador para Portugal do Ano Europeu dos Cidadãos em 2013. Nomeado consultor da Casa Civil da Presidência da República, em 2016, por Marcelo Rebelo de Sousa, suspendeu funções para se candidatar ao Parlamento Europeu pelo Aliança.

Nove da manhã, à mesa. “Estou a tentar fazer dieta, mas nesta campanha já engordei uma data de quilos”, diz Paulo Sande. “Deixe lá, depois vamos ter mais qualidade de vida. Não menos trabalho, mas, esperemos, um trabalho diferente”, responde a candidata.

Fonte: Jornal de Noticias

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