Início Aliança “Temos de reinventar a democracia e isso significa ser capaz de ousar”

“Temos de reinventar a democracia e isso significa ser capaz de ousar”

747
0

O cabeça de lista do partido Aliança às eleições europeias, Paulo Sande, é o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto.

Fala no presente, como se já tivesse sido eleito. Sorri, conta estórias e relembra a história enquanto aponta para um mapa mundo, colado numa das paredes da redação, como se já fosse eurodeputado. Na verdade, Paulo Sande conhece bem Bruxelas, só não tinha um cargo eletivo. Durante anos foi responsável pelo setor português de informação no Parlamento Europeu, no Luxemburgo, e representante do Parlamento Europeu em Portugal.

Ao Notícias ao Minuto, confessou que tem medo de andar de avião. Mas nem isso o fez recuar perante a possibilidade de lutar pelo ideal da Europa que tem há mais de duas décadas.

O convite para encabeçar a lista do Aliança, veio do presidente e fundador do partido, Pedro Santana Lopes, mas foi o aval do Presidente da República que o fez decidir. Optou por concorrer como independente porque quer manter em suspenso o cargo na Casa Civil da Presidência da República, ao mesmo tempo que garante o respeito a Marcelo Rebelo de Sousa e aos agentes políticos, da Direita à Esquerda, com quem sempre lidou.

Durante a entrevista – realizada antes do acidente de automóvel que viria a sofrer com Pedro Santana Lopes -, Paulo Sande revelou ainda que sente “uma grande responsabilidade” por ser o primeiro candidato a ir a eleições pelo Aliança. Contudo, garante que isso não o inibe de lutar contra a pobreza, contra a corrupção, contra os nacionalismos extremistas, o protecionismo e unilateralismo, enquanto, ao mesmo tempo exige mais coesão, sustentabilidade e solidariedade na Europa.

A União Europeia não é algo novo para si. Já escreveu vários livros técnicos sobre a Europa, foi alto quadro da UE e representante em Portugal do Parlamento Europeu, cargos que deixou em 2012. Desta vez está a tentar chegar ao Parlamento Europeu através de um cargo eletivo. Como se vê neste novo papel?

Vejo-me muito bem. Vejo-me como alguém que pode fazer a diferença e por isso aceitei esse desafio. Tinha e tenho uma vida confortável do ponto de vista profissional. Tenho para onde ir amanhã se for preciso, não estou à procura de cargos, nem sequer é uma coisa que me tivesse passado pela cabeça. Não andava à procura de nada, estou realizado em bastantes aspetos, mas tive sempre esta paixão pela Europa, uma paixão muito grande por uma ideia e por um ideal, sobretudo, um ideal que acredito ser extraordinário sobre muitos pontos de vista e está neste momento seriamente em risco por muitas razões. Algumas evitáveis, outras que é preciso evitar, mas pelas quais vale a pena debater-me. Julgo que tenho uma pequena parte nessa tarefa de mudar o que é preciso mudar para garantir que o essencial sobrevive e permanece. Muito sinceramente, foi essa a razão, mais do que isso não tenho, nem sequer gosto muito de andar de avião [risos]. 

Acha que é uma mais-valia sobre outros candidatos ter estudado tanto sobre a Europa?

Não gostaria muito de falar de mim próprio nessa matéria. Aquilo que lhe posso dizer é que conhecer a Europa por dentro é certamente uma mais-valia porque não vou perder tempo com pormenores nem com aspetos menos importantes. Vou direto à questão, ou às questões, porque sei como é que lá chego. 

Se a opinião de Marcelo Rebelo de Sousa tivesse sido desfavorável, tenho dúvidas que tivesse aceitado. Contra a vontade do Presidente, nunca me alistava

Há pouco contava-me que a sua candidatura ao Parlamento Europeu deve-se em muito à luta por um ideal de União Europeia. Foi essa paixão pela Europa que o levou a abandonar a consultoria da Casa Civil da Presidência da República?

Suspendi a minha participação na Casa Civil e muito antes do tempo em que era obrigado a fazê-lo. Suspendi em fevereiro por uma razão principal e depois uma acessória. A razão principal foi o facto de eu precisar de perceber Portugal melhor. Atrevo-me a dizer que se calhar conheço melhor o funcionamento de Bruxelas, do que conheço, não as instituições em Portugal, porque essas também conheço bem porque trabalhei na Casa Civil na área de política com as instituições, mas o país. Ninguém pode representar os portugueses, sem os conhecer bem. Estou há três meses a fazer isto e estou muito longe de conhecer bem o país, mas já estive em centenas sítios, em empresas, associações, na rua, nas feiras, com pessoas, com instituições e hoje tenho uma visão muito mais clara sobre as coisas. Sinto-me muito mais capaz de fazer aquilo que será a minha função em prol dos portugueses. A segunda razão foi respeitar também a função e o trabalho do Presidente da República fazendo isto de uma forma completamente livre, independente e por minha conta, porque é preciso respeitar a instituição da Presidência da República e, em particular, este Presidente.

E pediu-lhe opinião?

Pedi-lhe opinião, a opinião dele foi favorável e eu, naturalmente, senti-me encorajado também a fazê-lo. Enfim, vou dizer-lhe uma coisa que acho que ainda não disse. Se a opinião tivesse sido desfavorável, tenho dúvidas que tivesse aceitado porque há que respeitar as pessoas e há um valor fundamental que é a lealdade. Quando temos um compromisso e, de repente, nesse compromisso, há um problema, há qualquer coisa que nos pode levá-lo a quebrá-lo, a primeira coisa é respeitar o princípio da lealdade. Contra a vontade do Presidente, nunca me alistava.

E o que é que Pedro Santa Lopes fez para o convencer?

Vou dar-lhe a resposta mais ridícula do mundo. O que é que Pedro Santana Lopes fez para me convencer? Convidou-me! [risos]. E eu digo isso porque a sensação inicial, quando o partido foi criado, e aliás muita gente já me disse o mesmo, foi: ‘ele vai criar um partido contra a Europa, vai criar um partido que se vai posicionar numa franja à direita da direita, portanto, vai ser pelo menos um embrião, uma suspeita que seja de facto contra o processo europeu, contra a integração’. E o facto de me convidar, desmentiu completamente isso tudo. Desmentiu. Acabou com essa ideia. Ao convidar-me, ele negou completamente isso e para mim isso foi muito, muito importante. Portanto, ao convidar-me, ele deu-me a razão para aceitar e não tive dúvidas nenhumas de que era um excelente desafio.

É essa a principal razão pela qual se candidata como independente?

É, claro! Continuo a ser membro da Casa Civil. A lei permitia-me suspender funções um mês antes, suspendi no dia 8 de fevereiro. Nesses termos, posso ter uma filiação partidária, há vários assessores do Presidente da República que têm filiação partidária, mas eu não quis porque, no caso improvável de não ser eleito, voltarei a ser assessor consultor do Presidente da República e espero manter a aceitabilidade que tinha junto dos agentes políticos todos, da Esquerda à Direita, porque as funções a manterem-se são essas. Se não o fizesse, as coisas seriam diferentes. Uma coisa é ser militante de um partido, estar na Casa Civil e estar a fazer um trabalho na área social, na área cultural, outra coisa é estar no setor político, na assessoria política, trabalhar com partidos políticos. Foi esta a razão principal para me candidatar como independente. Não teve nada a ver com alguma apreciação que eu fizesse do partido Aliança, não teve nada a ver com uma apreciação que eu fizesse ao presidente do partido Aliança, teve a ver com isso.

Atrevo-me a dizer, mas é um atrevimento que eu espero que me seja desculpado, que o Aliança tem mais implantação já do que alguns partidos que cá estão há muito tempoÉ a primeira vez que o partido Aliança se candidata às Europeias e a quaisquer eleições. Sente a pressão de ser o primeiro candidato a ir a eleições pelo Aliança?

Sinto uma grande responsabilidade. Sinto mesmo. Essa responsabilidade também fez com que tomasse essas opções que já lhe disse, nomeadamente, nos termos do início do trabalho de campo pelo país. Um partido novo depende muito da primeira vez que se apresenta ao eleitorado. A forma como o eleitorado vai avaliar vai condicionar, muito provavelmente, tudo o que vai acontecer a seguir. Mas também não acredito que um mau resultado fosse fatal para o país. Há partidos que começam e têm meia dúzia de votos e depois começam a subir e ganham uma dimensão. Acho que este partido tem todas as condições para fazer isto. Atrevo-me a dizer, mas é um atrevimento que eu espero que me seja desculpado, que o Aliança tem mais implantação já do que alguns partidos que cá estão há muito tempo, incluindo, alguns partidos que estão representados em instituições. Portanto, acho que não é um caso de vida ou de morte, mas marcará uma tendência, marcará uma ideia sobre o que é que o Aliança pode e deve ser. E por isso sinto, sobretudo, responsabilidade.

Em que é que difere a sua proposta, a proposta do Aliança, dos outros candidatos ao Parlamento Europeu?

Dos outros partidos que já estão representados, a proposta da Aliança é a proposta de gente que nunca fez política. Em toda a minha lista, haverá duas ou três que já tiveram cargos em câmaras ou juntas de freguesias, mas não há ninguém em cargos nacionais. E ter pessoas novas na política é muito importante num momento em que o sistema político precisa de uma completa regeneração. É fundamental regenerar o sistema político. Não podemos continuar a ter este sistema político em Portugal, sob pena de colapso, colapso da democracia. É isso que me assusta. Isso assusta-me muito porque se há coisa que eu tenho o maior apreço do mundo é pela democracia. A democracia é sinónimo de liberdade. Liberdade e democracia andam de mãos dadas e se há uma ameaça à democracia, temos a responsabilidade de lutar contra essa ameaça. E isto não quer dizer que os antigos desapareçam ou que, pelo menos, desapareçam todos, mas tem de haver uma regeneração. Já dos partidos em geral, o que nos diferencia são as propostas muito baseadas no conhecimento da realidade. Propostas transformadoras, verdadeiramente transformadoras. Algumas poderão ir no mesmo sentido de outros partidos, porque é impossível inventar a roda todos os dias, até porque ela já está inventada. Mas além de transformadoras, são exequíveis. Não há nada que não possa ser feito.

A Europa tem de servir os portugueses e os portugueses têm de saber o que se passa lá desde o início de todos os processos fundamentais para nós

Quais são as principais preocupações como eventual deputado europeu?

A minha principal preocupação como deputado europeu, quando for eleito, é criar condições para que Portugal tenha uma nova atitude na Europa. E uma nova atitude na Europa significa várias coisas. Em primeiro lugar, estar na Europa com protagonismo, com proatividade, capazes de olhar para aquilo que nos interessa e levar aquilo que nos interessa para o sítio exato onde aquilo que nos interessa está a ser decidido. Isso é preciso fazer porque a verdade é que não é feito. Somos muito recetivos, muito passivos. Em muitos casos limitamo-nos a reagir e não a agir na Europa. E temos de agir na Europa. O exemplo mais importante para mim é a questão da coesão. A Europa não sobrevive sem voltar ao seu padrão original de solidariedade. Não é possível, não é mesmo possível. Sem coesão não haverá sobrevivência da União Europeia, porque a coesão foi sempre a chave da existência. 

A ponte tem de existir, não podemos passar cinco anos cada um na sua margem porque quando os deputados europeus cá vêm, vêm fazer trabalho partidário, mas não é trabalho partidário que eles têm de fazer, é um trabalho europeu porque a Europa tem de servir os portugueses e os portugueses têm de saber o que se passa lá desde o início de todos os processos fundamentais para nós. Têm de saber o que todos os deputados lá estão a fazer, por isso propomos a criação do deputado sombra que vai garantir que sabemos o que é que está a se passar mesmo.

Daí estar sempre a repetir que as leis são aprovadas na União Europeia, e os portugueses só sabem depois. Porque é que isso acontece? É por desinteresse dos portugueses? É porque não há ponte. O que nós queremos é colocar a discussão aqui. E como é que isso se faz? Temos várias propostas, mas uma delas, que é a mais emblemática e mais paradigmática, é implementar o chamado ‘mandado-negociado’, ou seja, quando a Comissão envia para os Parlamentos a sua proposta, o Parlamento nacional inicia um processo de avaliação para efeito de mandado negocial. Nesta altura, o Governo pode ter as primeiras ideias sobre o que deve fazer e acompanhar o processo legislativo. É claro que para isso é preciso criar estruturas, é preciso criar mecanismos, mas o debate público deve começar aqui e acompanhar a discussão. É a tal ponte que temos de criar. A Assembleia da República deve fomentar essas discussões, lançado nos espaços públicos debates, organizando seminários. Outra coisa que queremos é que os deputados europeus participem nisso. Os deputados europeus não podem estar só em Bruxelas, pode ser complicado, mas não interessa, tem de haver um mecanismo para garantir que isso aconteça.

Confesso que agora até acho graça, mas ao início, ofendeu-me um bocadinho ir para as feiras e dizerem-me ‘são todos uns gatunos, querem é tachos, ladrões’

E isso faria com que houvesse menos abstenção nestas eleições?

Não tenho dúvida absolutamente nenhuma de que, no dia em que os portugueses se apropriarem do processo europeu neste sentido do conhecimento e da antecipação, que a abstenção vai baixar drasticamente. O problema é que, os portugueses pensam: ‘isto não tem nada a ver comigo’. Confesso que agora até acho graça, mas ao início, ofendeu-me um bocadinho ir para as feiras e dizerem-me ‘são todos uns gatunos, querem é tachos, ladrões’. Isto acontece porque as pessoas não querem saber, mas mudará quando começarmos a convocar as pessoas para esta discussão. Há muitos mecanismos para isso, temos de reinventar a democracia e reinventar a democracia significa ser capaz de ousar, de ser transformador. Não é voltar a fazer o mesmo de sempre e de fazer coisas possíveis e exequíveis. Temos de encontrar mecanismos que têm, obviamente, de se basear nas novas tecnologias e novas realidades para ultrapassar a lentidão exasperante das instituições que estão a ficar para trás e que estão a pôr em causa a democracia.

No manifesto eleitoral, escrito por si, o Aliança diz que “o sonho europeu está em vias de se tornar um pesadelo”. Essa afirmação está relacionada também com o Brexit? Com este impasse da saída do Reino Unido? 

O Reino Unido foi sempre um país com um pé fora e um pé dentro. É um problema porque de facto não se pode estar dentro e estar fora ou estar fora e querer estar dentro. O mercado natural do Reino Unido é a Europa e, portanto, não vale a pena pensar que vai haver qualquer tipo de escapatória à força centrípeta da integração europeia. É evidente que o Reino Unido vai fazer falta à União Europeia, porque é um contribuinte líquido.

Como é que fica a Europa sem o Reino Unido?

A Europa fica com mais dificuldades em termos de recursos. Aliás, essa é a grande questão agora. Não é possível ter mais, com menos. Menos com menos dá mais dor de cabeça neste caso. Não é possível ter mais recursos para tudo, havendo menos recursos próprios. Andamos a tomar medidas que tornam o espaço europeu menos eficaz, menos eficiente e para o espaço europeu ser mais eficiente era preciso baixar os impostos radicalmente, permitindo à Europa ter condições para oferecer aos europeus uma lógica de integração, de coesão e de racionalidade económica, mecanismos de incentivo de que eles precisam muito.

Brexit? Sair do clube, significa sair do clube. Não significa sair do clube, mantendo todas as vantagens de lá estar. Essa era a grande ilusão

E acha que corremos o risco de mais países da União Europeia seguirem o mesmo caminho do Reino Unido?

Não! Há aqui um problema de fundo. O Reino Unido não quer aceitar fazer parte de um clube que o aceita como sócio, mas quer os mesmos benefícios. E isso não é possível. O Reino Unido não pode querer eximir-se a tudo o que são obrigações e ter só direitos. Isso não existe. A ideia de que era possível sair deste clube e ficar com tudo de bom é muito atrativa, só que o problema é que esta ideia caiu toda por terra. Sair do clube, significa sair do clube. Não significa sair do clube, mantendo todas as vantagens de lá estar. Essa era a grande ilusão. Foi a grande ilusão que foi vendida aos britânicos e por isso é que está a ser tão difícil sair. O que aconteceu ao Reino Unido nos últimos anos serviu claramente de vacina para os outros países europeus perceberem que isto é uma ilusão.

O resultado de um estudo feito há pouco tempo na Europa, relacionado com o Brexit, uma espécie de sondagem ‘quer sair/não quer sair’, foi surpreendente. Houve só um país em a vontade de permanecer era inferior a 70%, penso que tenha sido a Polónia, todos os outros estão acima dos 70% e Portugal está nos 94%. É um estudo de opinião, podemos ter aqui margens de erro, não estudei o estudo, não li a ficha técnica, mas de facto significa que a maior parte das pessoas quer permanecer. Foi uma terapia de choque.

Falando nisso, os europeus demonstram cada vez mais preocupação com o fluxo migratório, o número crescente de refugiados que chegam todos os dias à Europa e os atos terroristas que têm abalado vários países. Tem dito que a solidariedade é essencial para o futuro da UE. Tem a ver com esta problemática?

Uma primeira consideração antes de tudo: não aceito que um problema como este se torne propriedade exclusiva de determinado tipo de partidos, de movimentos, de opiniões. Estamos a falar, obviamente, dos extremismos. Acho que um partido responsável tem por obrigação encarar estas questões e dar-lhes respostas. Isto porque os tais partidos que apresentam soluções extremadas dizem ter a solução. O problema é que a solução deles não é solução nenhuma. São as tais soluções simplistas, aplicadas a questões muito complexas. Um partido responsável o que faz é procurar soluções equilibradas que permitam garantir que não há roturas, soluções drásticas e irrealizáveis.

Faço sempre questão de separar imigração e refugiados. Não é a mesma coisa. Não quer dizer que não venha um barco, cheio de gente, que diga que são todos refugiados e depois não são. E aí, mais uma vez, os Estados Europeus, como qualquer outro Estado no mundo, têm o direito de saber quantos imigrantes querem receber e em que condições. Essas soluções que se baseiam em muros, em impedir a entrada, a única coisa que fazem é tornar a Europa menos segura porque tudo isso vai levar a um crescimento das ameaças, a um crescimento dos problemas. O que a Europa tem de fazer é encontrar mecanismos para controlar esse fluxo e, para isso, precisa de ter recursos.

O fluxo migratório é uma decisão de cada Estado, nós não nos vamos meter na vida dos outros. Agora, a Europa tem de ser capaz de fazer uma triagem, de fazer esse trabalho. É uma questão de estupidez dizer que todos os imigrantes que quiserem podem vir para a Europa. Isso é impossível e ingerível. Os países têm de continuar a ter o direito de definir as suas políticas migratórias, em particular, no que diz respeito à quantidade de gente que vem para os seus países, e se quiserem mais, querem mais, se quiserem menos, querem menos. Portugal precisa de mais recursos para as fronteiras, para o Frotex, para os polícias, para a polícia europeia de fronteiras. Tudo isso são necessidades que a Europa tem.

Outra das necessidades da Europa é de tomar uma decisão sobre os jihadistas e suas famílias que aguardam repatriamento para os seus países de origem em campos da ONU, na Síria. E nós, em Portugal, temos pelo menos dois casos conhecidos de luso-descendentes, mulheres de jihadistas com filhos destes relacionamentos, que aguardam resposta do Governo. O que defende o Aliança e o Paulo nestes casos? O que deve ser feito?

É um problema de cada país. Cada país é que tem de definir a sua política em relação aos seus nacionais. Na Europa tem de haver força, corporação em termos de política e de forças, de intelligence. É um esforço que tem de ser feito e isso já existe na Europa, mas tem de ser cada vez mais reforçado porque é assim que se consegue ultrapassar as dificuldades. A Europa é um espaço integrado, inclusive, um espaço de livre circulação. Quando se passa uma fronteira externa, entra-se nesse espaço e, a partir daí, está-se nesse espaço e pode-se circular dentro dele, mas existe regras e essas são europeias. O que tem de existir é um grande controlo e, sobretudo, uma grande corporação entre as polícias.

Tem de haver a capacidade de localizar quem está a entrar, por onde é que entrou, para onde é que vai e o que é que está a fazer. Agora a questão do regresso dos jihadistas, ou das famílias dos jihadistas, é uma questão nacional. Cada país tem de decidir o que é que quer fazer com isso. Os países têm mecanismos para acolher, ou não acolher, podendo rejeitar o regresso. É Portugal que decide se aceita os seus nacionais. A única questão relacionada com a União Europeia é a questão do terrorismo e do alerta que isso pode desempenhar e aí as autoridades devem estar alerta.

E quanto à Venezuela, o que pensa da crise política e humanitária que se vive atualmente por lá? 

Eu sou contra os ditadores. Não consigo entender como é que é possível alguém manter o povo sequestrado numa lógica, ainda por cima, de alinhamentos internacionais, mais ou menos estáticos, e não haver, nos tempos que correm, capacidade de impor uma solução democrática. Não sou a favor de nenhuma intervenção, acho que as intervenções não funcionam, mas isso também mostra como o mundo continua a ser um lugar muito perigoso e se a Europa pensa que se escapa a isto, não vai conseguir.

Temos o problema dos nossos nacionais e até dos lusodescentes e temos de estar muito atentos. Temos de ter recursos, nomeadamente, diplomáticos para ajudar o máximo possível. Agora obviamente que é muito difícil para Portugal ter uma ação nisso. Não sei se Guaidó é a solução. Sei é que tem de haver uma solução democrática e aquilo que existe neste momento não é de todo democrático, sobretudo, sabendo-se que muito da solução ainda do Governo atual da Venezuela é uma solução, digamos, garantida por forças que não são venezuelanas.

Os europeus demonstram cada vez mais preocupação com o ambiente e o Aliança vai ao encontro desta questão ao defender a sustentabilidade. Que projetos e medidas têm em mente para dar resposta a estas preocupações?

Tem que ser feito um levantamento urgente. Nós temos sentido cada vez mais esse preocupação, em particular, da parte dos jovens. Temos de exigir que seja feita uma verificação clara da eficácia das medidas ambientais aplicadas em Portugal que vêm da União Europeia. A Comissão Europeia tem feito isso, aprovou recentemente um instrumento no sentido justamente de fazer a supervisão, o acompanhamento da eficácia das medidas ambientais a nível da União Europeia. Temos de ver até que ponto é que os mecanismos europeus estão a ser aplicados em Portugal. Como por exemplo a questão do lítio no Minho, a questão do cultivo intensivo das oliveiras, a questão da água, a questão de Espanha, são tudo questões que têm de ser vistas à lupa. Tenho de perceber, usando os instrumentos europeus, que avaliação é que é feita da aplicação dessas medidas em Portugal. Isso não é fácil porque nós vamos sempre chocar com uma coisa que é a posição do Estado que diz: ‘isto está controlado’. A subregulamentação das leis europeias é um problema, em particular, das diretivas. Muitas vezes, a forma como o Estado português usa as diretivas europeias é para fazer também política nacional.

Não devemos entrar em pânico com esses movimentos que põem em causa a liberdade e a democracia. O medo paralisa a mente, paralisa a racionalidade. Temos de resistir a esses movimentos extremistas, não proibirE se pudesse, o que mudaria já na Europa?

Punha a Alemanha a investir muito mais fora de portas. Punha a Alemanha a gastar mais dinheiro nos mercados europeus. Punha a Alemanha a adotar uma política expansionista e a equilibrar os mercados, as balanças comerciais, a permitir que os países que têm mais dificuldades, mais défices como nós, pudessem beneficiar dessa política expansionista e investimento e ao mesmo tempo também de importação por parte da Alemanha. Isso é muito importante, porque senão, enquanto a Alemanha tiver excedentes comerciais, outros países terão sempre défices comerciais. Além disso, convencia a senhora May a ter juízo e a fazer um outro referendo. Ninguém na Europa quer o Brexit.

Além da instabilidade, o atual panorama político europeu também está marcado pelo crescimento de movimentos de extrema-direita e eurocéticos, o que chega a ser um pouco contrassensual, visto que o objetivo deles é o de tentar desagregar a UE. Concorda que se dê oportunidade a esses partidos?

Concordo. A Europa é um continente de liberdade de expressão. É um continente de liberdade, de democracia e isso quer dizer que todos se podem exprimir. Prefiro que a Europa seja aberta a isso do que entre em modelos repressivos que depois farão com que ela seja obrigada a condicionar a própria liberdade. Na liberdade temos de aceitar a ameaça a ela própria. Obviamente que também temos de nos defender dela. Não devemos entrar em pânico com esses movimentos que põem em causa a liberdade e a democracia. O medo paralisa a mente, paralisa a racionalidade. Temos de enfrentar essas questões. A imigração, o terrorismo, a falta de segurança, temos de enfrentar isso tudo com soluções sensatas, que mantenham o equilíbrio e não desequilibrem completamente a nossa sociedade. Temos de resistir a esses movimentos extremistas, não proibir. E ao mesmo tempo manter a segurança, pois um país onde não há segurança, mesmo que seja uma democracia, é um país que não tem liberdade. No dia em que começarmos a limitar a nossa segurança, eles já ganharam.

Acho que Nuno Melo tem de ter cuidado porque não é agradável fazer estas comparações e ainda por cima sem base nenhuma. Foi infeliz

Recentemente, Nuno Melo chegou mesmo a comparar o Aliança ao Vox. Como viu essa comparação?

Achei que foi infeliz e que não era necessário. Foi uma tirada eleitoralista, num momento eleitoral de alguma exaltação, mas que já foi desculpada ao Nuno Melo. Acho que ele tem de ter cuidado porque não é agradável fazer estas comparações e ainda por cima sem base nenhuma. Está a comparar a génese de um partido, com a génese de outro partido. Se ele fizer isso, vai ter de comparar tudo, da esquerda à direita, dezenas de casos no mundo de partidos que nasceram de outros e, portanto, serão todos Vox. Foi uma comparação infeliz.

Em que resultado acredita o Aliança? Quantos deputados pensa levar para o Parlamento Europeu?

Vamos eleger dois deputados, isso parece-me claro e temos cada vez mais sinais nesse sentido. Se elegermos três será uma grande vitória. Se elegemos um também aceitamos e não ficaremos tristes. Quer dizer, eu fico triste porque gostava de ter uma delegação, um grupo que trabalhasse em várias frentes. Ainda por cima o nosso número dois é uma empresária do Norte, do Porto, portanto, dá-nos aqui uma dimensão nacional que o partido já vai tendo. É um partido que está implantado por todo o país.

E não é demasiado ambicioso?

A ambição nunca fez mal a ninguém, eu não gosto é da falta de ambição. E é ambicioso, mas é realista. Ser fosse irrealista eu dizia-lhe. Se me dissesse que ia eleger quatro, eu diria que já estamos no reino do irrealismo. Três é muito difícil. Era preciso que os portugueses nos conhecessem melhor. O problema é que a comunicação social tem, de alguma forma, contribuído para que isso não seja possível por causa do ciclo vicioso: um partido que não está representado não é convidado e não é convidado porque não está representado. Portanto, não chegará a ser representado e nem a ser convidado. E isso tem de acabar. Essa é uma das nossas lutas agora. Aliás fizemos uma queixa na Comissão de Eleições, preocupados com a democracia em Portugal. Porque uma coisa é dizer: ‘este partido concorreu 50 vezes, tem 10 mil pessoas’. Outra coisa é dizer: ‘um partido novo, que por acaso até é liderado por antigo primeiro-ministro e que tem um conjunto de gente séria, que conhece o assunto e que está a tentar propor ideias’.

Agora umas perguntas mais pessoais, para os eleitores o conhecerem um pouco melhor. O seu pai e avô eram militares. Nunca pensou ingressar por esse caminho?

Andei no Colégio Militar, nunca me passou pela cabeça ir para as Forças Armadas e o meu pai dizia-me para eu não ir. O meu pai foi de facto militar, esteve na guerra, foi preso, mas achava que não era vida para os filhos. Além disso ele tinha uma grande paixão por Direito e chegou mesmo a ser defensor oficioso nos tribunais de Moçambique na altura. Ele gostava muito de Direito e passou-me esse bichinho. Desde muito cedo que quis ir para Direito.

Viveu em vários países, em várias cidades. Porquê?

Nasci em Macau, tive lá seis meses e nunca mais lá fui. Depois fomos para o Faial, onde o meu pai foi comandante da polícia, estávamos lá quando foi a erupção dos Capelinhos. Depois fomos para Évora durante dois anos e depois fomos para Goa. O meu pai ficou preso e nós fugimos no último barco. Passamos por Moçambique depois ele veio para Angola. Depois a partir daí voltei para Portugal e fiz a minha vida na Europa, tive no Luxemburgo, enfim…

E qual a sua cidade predileta?

Lisboa! Lisboa é das mais bonitas cidades do mundo. É uma cidade especial, está à beira do Atlântico. Com uma luz maravilhosa, com um clima ótimo.

E como surgiu o curso de Direito?

O meu pai falava muito disso e eu fiquei com aquele bichinho. Depois quando comecei a ler Perry Mason, que é um livro de uma advogado famoso que descobria tudo, fiquei muito interessado e orientei-me para ali e nunca mais pensei noutra coisa.

Como é que se começou a interessar por assuntos relacionados com a Europa?

Quando já estava a trabalhar, fiz uma pós graduação em Direito Comunitário e a partir daí nunca mais deixei aquele bichinho. Quando abriu o curso para o Parlamento Europeu, concorri e lá fui.

E a natação? Foi campeã nacional, certo?

Comecei a nadar em Luanda já tarde, depois fui campeão de Angola, fui a vários campeonatos nacionais cá, mas nunca fui um nadador excecional. Andei no Algés e Dafundo e fui campeão nacional de estafetas, em individual fiquei em terceiro lugar. Fiz três anos a dar aulas de natação em Cascais e tinha uma equipazinha. Foi muito divertido, na altura estava Faculdade. A natação é um desporto muito absorvente. Há mais de um ano que não nado, mas quero voltar.

O que faz nos seus tempos livres? Li algures que joga ténis regularmente…

Tem conseguido manter os treinos mesmo com a agenda política? Vou ao ginásio, jogo ténis. Mas há três meses que faço isso muito pouco. Estou dedicado às eleições europeias agora, mas quero voltar.

Continua a dar aulas? Como vai fazer se for eleito?

Eu dou aulas há 20 anos na Universidade Católica, sempre à mesma cadeira, Construção Europeia. Sou professor convidado, não tenho carreira académica, nunca pude ter nem quero ter. Mas gosto imenso de dar aulas. Para o ano, eventualmente, continuarei a dar, mas não lhe posso dar a certeza.

Li algures que a pessoa que mais admira é Marcelo Rebelo de Sousa. Porquê?

Não vou voltar a repetir isso porque isso deu-me muitos problemas [risos]. Não é a pessoa que mais admiro. A pessoa que mais admiro é a minha mulher, são os meus filhos. Eu admiro muito o Marcelo Rebelo de Sousa, tenho uma grande admiração por ele, acho uma pessoa notável, com uma inteligência verdadeiramente superior, acho que é um privilegio para Portugal ter um Presidente assim, além disso é quem é, tem a natureza que tem, podemos criticar tudo mas não o podemos criticar por não ser genuíno. É profundamente genuíno. Mas tive admiração por outras pessoas, por exemplo o Hernâni Lopes, foi uma pessoa que me marcou bastante, na área da política.

Fonte: Noticias ao Minuto

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here