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Aliança. Um polícia curioso e o candidato que evita o Rei da Noite

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O primeiro dia de campanha do Aliança consistiu num passeio por um centro comercial e por um encontro com um polícia que fez perguntas. À noite, Paulo Sande, o candidato de Santana Lopes, participou em mais um debate.

Saber quem se senta no Trono de Ferro, no próximo domingo, vai ser um barómetro para perceber quem vai ser eleito no dia 26. Se for a Sansa a vitoriosa na Guerra dos Tronos, dá dois deputados ao Parlamento Europeu. O Jon Snow dará três. Mas há um nome mais inesperado: Sam. Aí, serão quatro os eleitos. E se tudo correr muito mal e nem um eurodeputado? Aí é só se o Rei da Noite ressuscitar e ganhar.

A brincadeira é da autoria de Paulo Sande, o candidato da Aliança que enfrenta nestas eleições o seu primeiro sufrágio, enquanto bebe o seu segundo café no espaço de uma hora: o especialista em assuntos europeus esteve acordado até de madrugada para ver o penúltimo episódio da saga inspirada nos livros de George R.R.Martin. A cafeína é necessária. Este é o primeiro dia oficial de campanha para as Europeias. E é também o primeiro dia de campanha oficial do Aliança, que foi fundado no fim do ano passado por Pedro Santana Lopes. O dia, que começa neste passeio pelo Parque das Nações, terá ainda uma reunião de campanha, um almoço e, à noite, um debate televisivo na RTP3.

Óculos de sol, casaco e gravata, Paulo Sande, cabeça de lista do Aliança por Lisboa, avança com uma comitiva de vinte pessoas pelo centro comercial Vasco da Gama. O fundador do partido, Pedro Santana Lopes, não veio. Está na sede, na Avenida da República. Aliança, é o que dizem as quatro bandeiras nas mãos de militantes. Há t-shirts estampadas e folhetos nas mãos. Não há assim tantas pessoas pela rua – nem nos corredores do espaço comercial. Há, até, escadas rolantes que não funcionam. “Desligaram as escadas por nossa causa”, brinca Paulo Sande, enquanto aponta para que subam. “É a Aliança a subir para as eleições. A escalada para as eleições”.

Mas a escalada é feita com poucas interações. Ali e nas ruas à volta do centro. Há concorrência. Não a da política, mas a de folhetos: há quem por ali distribua publicidade.

“É o partido novo?”, pergunta retoricamente uma senhora sentada num dos bancos na rua, que recebe os folhetos. O grupo conversa um pouco. Entregam-se as folhas e trocam-se palavras. Sande assume que há uma coisa que ainda não percebeu: o dress code. É o único mais formal.

O POLÍCIA CURIOSO

O grupo continua a andar e um polícia fardado junta-se ao grupo entre o centro comercial e a estação de comboios do Oriente. Chama pelo responsável. Sande identifica-se. Já se temiam problemas, admitiu o candidato.

Mas é de política que o polícia quer falar. Um dos agentes diz-se desiludido com os partidos de direita com que mais se identificava e assume que está atento ao partido fundado por Pedro Santana Lopes, atualmente com cerca de 3 mil militantes. Na conversa, Sande alerta para a demagogia e os riscos para a democracia que o desencantamento pode trazer. Acredita que há algum campo para a insatisfação nas forças de segurança, que considera maltratadas. Mas defende que o partido responde sem populismos e que dá respostas diferentes das dos partidos tradicionais.

Este é, aliás, um dos argumentos do grupo. Uma das apoiantes mostra ao polícia o folheto do Aliança: “Não vê aqui nenhuma cara conhecida”. Maria João Moreira, pelo Porto, Bruno Ferreira da Costa, por Castelo Branco, estão ao lado do professor universitário num folheto com as “21 medidas para o século XXI”. A conclusão da união monetária é uma das propostas – mas não a orçamental, que, defende Sande, é utópica nesta altura (como o é a formação de um exército europeu).

Este pode ser o primeiro dia de campanha para as Europeias, mas Sande lembra que o caminho já começou em fevereiro. “Cá estamos, mais uma vez”, tinha já dito quando chegou ao pé da comitiva. São cerca de 20 pessoas, mas sublinha que se tem cruzado em vários locais com outros partidos, mesmo os representados na Europa, e não se sente inferior. “Ainda não estive em sítio nenhum em que a nossa comitiva fosse a mais pequena”, comenta. “Somos um partido com muitos poucos recursos, que está em cinco ou seis sítios ao mesmo tempo”, diz. Esteve muitos anos em gabinetes, mas diz estar já habituado à vida de campanha.

PARTIDO A FAZER COISAS

Neste período de trabalho desde fevereiro até agora, o Aliança esteve em associações e em instituições de solidariedade social, conheceu empresas, entrou na economia real, como diz Paulo Sande. “Há um défice de conhecimento da realidade”, comenta. Dá o exemplo da proposta do Aliança para a isenção de portagens nas SCUT para residentes no interior. Na próxima semana, o candidato quer telefonar a essas entidades que já visitou. “Dar conta do que já fizemos”. Não só falar, mas ouvir e agir.

“Há a página Marcelo a fazer coisas. Aqui é o partido a fazer coisas”, brinca com a página de Facebook que utiliza a preenchida agenda do Presidente da República (as últimas semanas foram a exceção), de quem foi consultor político até ser anunciado como candidato às eleições.

Não haverá comícios no dia 24, o último da campanha. Outra diferença que quer marcar face às tradicionais forças políticas. A garantia foi dada pelo candidato a eurodeputado rodeado da comitiva, quando fazia um balanço daqueles minutos no parque das nações. “Comício é para falar para nós”, não para o povo, concorda uma militante. “Mas também é uma demonstração de força”, contrapõe outro apoiante. Não há grande discussão. Sande quer apenas agradecer o tempo àquele grupo, onde há estudantes e empresários.

O militante-tipo do partido são pequenos empresários liberais, resume o também campeão de natação. “Mas somos um partido bastante popular”, considera Sande. “A nossa grande causa é a coesão, em termos concretos. Sem coesão, não há sobrevivência da Europa”. Países a apoiarem-se, como já não fazem atualmente. É com esta ideia que o partido espera, também, chamar jovens. Mas o partido não tem uma juventude partidária – mais uma diferença do Aliança que Paulo Sande sublinha face aos grandes partidos. Criam vícios cedo, justifica. Uma juventude é “hierarquizada e tendente à aquisição de poder”, comenta o especialista europeu.

É também esta a opinião da Daniel Lopes, 20 anos, t-shirt com a imagem “Caras Novas, Europa Nova”, que integra o grupo de apoiantes do Aliança. “Num partido grande, eu nunca iria fazer diferença”. “Nunca estive num partido. Filiei-me sem conhecer ninguém”. O estudante de Administração Pública e Políticas do Território, do ISCSP, onde Sande é professor, foi à sede e inscreveu-se.

DIFÍCIL SEM TELEVISÃO

A sede é na Avenida da República, perto do Saldanha e do Campo Pequeno e é lá que está Pedro Santana Lopes. “É um partido de quadros, não tanto um partido de bases. Não é o grande capitalista, nem a classe operária”, explica. Quer ir buscar votos a quem não vota. “Trocar o A de Abstenção pelo A de Aliança”. Mas também à direita tradicional. “Vi um presidente de um partido a dizer que nada sabia. E vi um líder parlamentar e uma deputada a dizerem que o presidente estava a acompanhar. Quem mente tem de se demitir”, exige, referindo-se à polémica dos professores.

E para um político que até foi primeiro-ministro, o que se sente de distintivo agora à frente do Aliança? “Uma enorme diferença de meios, uma enorme diferença de cobertura”. Mas também uma “diferença no entusiasmo”. Aqui, constrói-se algo novo. Não sentia, quando estava num dos grandes partidos, que os que não tinha representação eram prejudicados? “Sentia e sabia”. Mas, relembra, fez coligações com pequenos partidos que assim tiveram representação. “É mais confortável, um partido grande tem tudo ao seu dispor”, assume.

“É muito difícil fazer política sem televisão. Onde há 100 mil e tal votos [estimativa para conseguir pelo menos um eurodeputado] sem televisão?”, pergunta Santana Lopes. Os números de eurodeputados eleitos por si pretendidos não estão muito diferentes dos de Sande: “De zero a três. O mais provável? 1,5. Se fico contente se eleger um, se eleger dois fico muito contente. Se não eleger nenhum, a vida continua”. É o tal cenário do Rei da Noite em que o cabeça-de-lista não quer acreditar.

A presença televisiva é tema da reunião semanal da campanha, que tem lugar naquela sede, mas sem contar com o fundador – que está no seu gabinete. Mesmo criticando a diferença de tratamento face aos partidos já representados, Sande admite que o Aliança tem tido mais representatividade do que outros partidos da “segunda divisão”, como se referem os militantes na brincadeira. O Aliança aparece nas várias sondagens – ainda que, digam, as “sondagens contam pouco”. Mas o início de vida do Aliança tem outros problemas. De disponibilidade de todos os envolvidos. E de organização. Neste primeiro dia de campanha, houve problema com o tempo de antena. Não chegou à Rádio Renascença e não foi transmitido.

A rádio falhou, mas a televisão é a meta. O primeiro debate televisivo entre cabeças-de-lista, transmitido na SIC, teve cerca de 800 mil pessoas a ver. “A quantas feiras preciso de ir para ter 800 mil pessoas a ver?”, pergunta retoricamente o responsável que esteve mais de uma década nas instituições europeias, incluindo Parlamento Europeu.

Já de manhã, ainda antes da ida parque das nações, o debate televisivo tinha sido assunto, num encontro entre alguns nomes do partido tinha sido ali perto, na esplanada da pastelaria Versailles, perto da sede. A esplanada tem um aviso: “Agradecemos a vossa atenção para não alterarem a exposição da esplanada”.

O Aliança quer alterar a exposição do Parlamento Europeu. E quer a licença do eleitor. É para isso que Sande vai lutar no debate televisivo, na RTP1, que vai juntar os representantes dos partidos que ainda não têm assento esta segunda-feira.

Há só um senão – e é essa concorrência que Paulo Sande também teme. “O debate de hoje é numa péssima altura. Começa às 22h00. Às 22h10 começa a Guerra dos Tronos”.

Fonte: Expresso

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