Início Destaque O Ministério da Verdade

O Ministério da Verdade

405
0

1984 é o nome de um romance distópico, de ficção política, escrito em 1948, por George Orwell. O romance descreve uma sociedade governada por um governo despótico, ditatorial e controlador  (a expressão “big brother” vem daí). O governo dessa sociedade tinha um curioso ministério chamado “Ministério da Verdade”, que usava um vocabulário próprio, a “novilíngua” e com o qual ia mentindo aos cidadãos. O procedimento era mais que conhecido: tratava-se de “pegar” em factos desfavoráveis à imagem do Governo, re-interpretá-los e dar depois origem a uma narrativa que fosse favorável à imagem do poder político.  

Há uma atracção fatal à qual alguns governos não conseguem resistir: é exactamente a formação de uma nova versão do “Ministério da Verdade”, uma máquina de propaganda que produza um discurso que seja convincente e conveniente à boa imagem do poder político. O que importa é que as pessoas acreditem, mesmo que para isso se minta.

Tal como é típico da esquerda, este governo tem sido bem sucedido a falar às pessoas em “novilíngua”, uma conversa que se dedica a espalhar uma versão fantasiosa de uma realidade que só existe nas elocubrações do discurso.  A conversa deste Governo até parece uma versão da canção: “Eu ‘tô bem // Tu também ’tá bem // Todo mundo aqui ’tá bem  // É mafiosa…”.

Podíamos, por exemplo, falar da nossa dívida pública que é hoje a terceira mais alta dos países da UE, ou falar do défice da balança comercial que, em 2018, voltou a agravar-se com um saldo negativo de 17 mil milhões de euros, mas, para não ser muito maçador, tomemos como exemplo o tema do défice de 0,5% que parece ser o último trunfo do “Ministério da Verdade” deste governo.

Fazer passar a ideia de que este défice resulta de uma boa execução orçamental, não é coisa séria nem rigorosa. De facto, esse  tão elogiado défice está, afinal, na média dos défices dos países da União Europeia, segundo o Eurostat. E qual é o “milagre” deste défice? Primeiro, foi conseguido à custa de uma brutal carga fiscal nunca antes vista. Depois, resulta de um desinvestimento público na Saúde, na Educação, na Justiça e noutras áreas nevrálgicas da governação (a Infraestruturas de Portugal investiu, em 2018, 50% do que tinha sido anunciado e o Ministério da Saúde teve um desinvestimento em 2017, quando comparado com os dois anos anteriores.). Em terceiro lugar, além da carga fiscal máxima e do investimento mínimo, temos ainda, como bem lembrou o Presidente da Aliança, Pedro Santana Lopes, uma artimanha:  o défice de 2018 baixou de 0,7% para 0,5%, por conta dos atrasos de quase um ano, em média, nas respostas aos requerimentos de atribuição de pensões. Esses atrasos acarretaram uma lamentável ‘poupança’ no exercício orçamental de aproximadamente 500 milhões de euros. E assim se faz um brilharete no défice: (1) carga fiscal máxima, (2) investimento mínimo e (3) uma boa dose de manha.

Desta forma, o “Ministério da Verdade” deste governo vai espalhando a propaganda, encoberta por um manto diáfano de meias-verdades, numa “novilíngua” que os mais atentos não podem deixar passar.

Ora, assim até eu conseguia ser o “Ronaldo das Finanças” (apesar de ser como o Jesus Cristo do poema de Fernando Pessoa, que de Finanças não percebia nada…).

Luís Seabra Melancia