Início Destaque Agir pelo Ambiente – porque já nos falta tempo

Agir pelo Ambiente – porque já nos falta tempo

411
0

Quando a 15 de março milhares de jovens saíram à rua, concretizando a primeira greve estudantil pela defesa do Ambiente, surgiram múltiplas vozes a se apropriar da temática, como se o ambiente fosse propriedade de qualquer agenda ideológica ou a criticar o movimento, como se fosse um “capricho” de uma geração. Esta dupla visão é alimentada por um vazio de agendas, mas mais grave do que esse argumento, por uma desconsideração absoluta pela forma como os jovens olham a sociedade e como decidiram agir pela defesa de um património comum – o ambiente.

Entramos no velho hábito de olhar a juventude como os decisores ou os agentes do amanhã, recusando aceitar que o seu papel é determinante para o presente, para a afirmação de uma identidade e de uma matriz intergeracional, onde todos contam e todos são importantes para a construção de um projeto comum. Um projeto que tenha como premissas fundamentais a melhoria das condições de vida das pessoas e a criação das condições para as gerações vindouras beneficiarem desse bem-estar. A equação é simples: o futuro só não será hipotecado, com uma ação concertada no presente.

Se no momento em que uma geração “agarra” uma causa nobre e decide lutar por ela, acomodamo-nos na crítica fácil, como podemos exigir que os jovens se aproximem da política? Como podemos criticar os baixos níveis de participação eleitoral desta geração? O caminho passa por compreender as necessidades, as prioridades e as exigências dos novos tempos, numa adaptação constante, mas em respeito absoluto por uma matriz histórica e cultural. O desafio é esse, ouvir os anseios das novas gerações, dar-lhes espaço e as condições para trilharem o respetivo caminho e, em simultâneo, promover um trabalho colaborativo intergeracional, que permita, precisamente, integrar este contributo nas políticas públicas que defendam a sustentabilidade do meio em que vivemos.

O aquecimento global, as transformações profundas no nosso ecossistema e na biodiversidade, bem como a poluição nos oceanos são exemplos concretos do impacto que a ausência de políticas ambientais estão a causar, o que torna mais do que justa qualquer ação que exija que o ambiente seja considerado uma prioridade no delinear de quaisquer políticas públicas. Mais justa quando essa reivindicação parte de uma geração que tem vindo a ser desconsiderada no debate público e político.

O ambiente não pode ser apenas uma causa ou uma ideologia, tem de ser um modo de vida. Mais do que proclamar ser diferente, importa fazer diferente, tal como foi defendido, de forma clara, pela ALIANÇA, relativamente às dragagens do Sado ou a preocupação demonstrada com a manutenção da atividade da Central de Almaraz e com o uso intensivo de plástico descartável.

Mas o caminho não pode ser feito com a apropriação de causas por determinados partidos ou agentes políticos, por exemplo, com deputados a saírem do seu gabinete na Assembleia da República para filmarem a manifestação dos estudantes pela defesa do ambiente como aconteceu a 15 de abril. Estamos perante uma geração atenta e que não aceita ser ludibriada por estes comportamentos que apenas minam a confiança nos políticos.

O caminho tem de ser o do envolvimento direto, com a ação a acompanhar a proclamação de um modo de vida mais sustentável. Há que Agir pelo Ambiente, porque já nos falta tempo.

 Bruno Ferreira Costa